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Edu, Coração de Ouro (1968)

Edu, Coração de Ouro (1968)

Wallace Andrioli - 27 de maio de 2018

Segundo filme dirigido por Domingos Oliveira, “Edu, Coração de Ouro” (1968) segue seu antecessor, a obra-prima “Todas as Mulheres do Mundo” (1967), tanto no recorte social – ambos são protagonizados por jovens, na faixa dos 20 e poucos anos, moradores da zona sul do Rio de Janeiro – quanto na filiação aberta a um cinema moderno em voga na década de 1960. A Nouvelle Vague, sobretudo o primeiro Godard, é a referência principal aqui, com Oliveira encharcando a estética do filme com a jocosidade que rege o cotidiano de Edu (Paulo José): “Edu, Coração de Ouro” se estrutura em dois segmentos, cujos títulos anunciam essa propensão à brincadeira, ao jogo (“1ª parte, um dia comum de Edu no qual veremos o herói andando rápido ou lento na direção em que sopra o vento” e “2ª parte, o dia da festa no qual o herói nega o amor e a morte sem nenhuma razão mais forte e a estória chega a um fim propício que bem poderia ter sido o início”), há repetido uso de freeze frames que fragmentam ironicamente a ação e recurso a letreiros e a uma narração em off também irônicos, que pontuam a personalidade despojada do protagonista.

E Edu é, no fim das contas, a síntese desse despojamento frequentemente atribuído aos cariocas. Não trabalha nem estuda – sequer prestou vestibular, nos créditos iniciais aparece lendo a sessão dos classificados de um jornal apenas para se esconder de uma garota que está perseguindo e, no único momento do filme em que realiza algum ofício, ajudando um amigo jornalista a entrevistar turistas no Cristo Redentor, faz perguntas completamente estapafúrdias –, vive às custas dos pais, passa seus dias entre a praia, a noite e encontros com amigos e garotas. Oliveira assume postura dúbia em relação ao personagem, já que, ao mesmo tempo que incorpora sua personalidade à narrativa, não esconde sua alienação política e práticas elitistas. Edu, por exemplo, critica a empregada doméstica da família por lhe servir um pão com as próprias mãos e, em momento posterior, a violenta. O protagonista, portanto, apesar de jovem e supostamente moderno, carrega em si todo um caldo cultural escravista, presente nas velhas elites brasileiras.

“Quanto ao problema social, prefiro não ler o jornal”. Essa fala de Edu se torna especialmente curiosa por “Edu, Coração de Ouro” ser um filme de 1968, ano emblemático pela efervescência política e social em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. Num momento de fortalecimento do movimento estudantil no combate à ditadura militar, instalada no poder já há quatro anos, o personagem criado por Oliveira expressa a postura de uma outra parte da juventude brasileira, que não foi às ruas protestar contra a morte do secundarista Edson Luís (em março), nem marchou na Passeata dos Cem Mil (em junho), mas, provavelmente, pulou carnaval, dançou o iê-iê-iê e se divertiu com a aventura “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” (1968), estreia do astro da Jovem Guarda como ator. Trata-se de um filme que, como alguns outros dessa segunda metade da década de 1960, se interessa pelas classes médias urbanas, grupo social até então pouco presente no cinema brasileiro. Mas, ao contrário de “O Desafio” (1965), de Paulo César Saraceni, “A Opinião Pública” (1967), de Arnaldo Jabor, “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, e “A Vida Provisória” (1968), de Maurício Gomes Leite, por exemplo, “Edu, Coração de Ouro” evita tons graves ou pretensões sociológicas.

A comparação com “A Vida Provisória” é especialmente interessante por ser esse também protagonizado por Paulo José, mas interpretando um personagem que é quase o oposto de Edu, ainda que localizado na mesma classe social: politicamente engajado, o jornalista Marcelo se angustia com a situação do país, enquanto contrasta seu passado de militância a um presente de obrigações profissionais, que o levam a, de certa forma, “servir ao inimigo” (ele trabalha num jornal conservador). Edu não tem inimigos, sua luta diária é para superar a preguiça (um recado pregado no seu quarto diz “o mesmo esforço de certos homens para alcançar a fama eu faço diariamente para sair da cama”).

Nesse sentido, talvez a melhor definição para o protagonista de “Edu, Coração de Ouro” seja mesmo a de “carioca lírico-obsceno”, apresentada por Oliveira durante os créditos iniciais do filme. Espécie de Macunaíma da zona sul do Rio de Janeiro, principalmente se tomada por referência a versão cinematográfica de Joaquim Pedro de Andrade para a história criada por Mário de Andrade (curiosamente, também com Paulo José no papel principal). O egoísmo individualista, no fim das contas, é o atributo que une os dois personagens, gerando consequências para os próprios e para aqueles que os cercam: no caso de “Macunaíma” (1969), os irmãos e agregados do protagonista, cansados de serem trapaceados, o abandonam à própria sorte (e ele acaba devorado pela Iara); no de Edu, o tratamento displicente dispensado ao amigo Castor (Amilton Fernandes), deprimido em razão das traições da esposa, acaba contribuindo para seu suicídio no epílogo do filme, que Oliveira contrasta à festa carnavalesca do personagem-título.

Mas que fique claro: o diretor não assume, em nenhum momento, qualquer postura abertamente condenatória em relação ao rapaz. Ele incorpora suas contradições à narrativa, mas não deixa de se identificar com Edu, até por se tratar de uma figura social e culturalmente próxima. Oliveira também era, na década de 1960, um jovem de 20 e poucos anos, boêmio e morador da zona sul carioca, faceta explorada inclusive em seu filme mais recente, o ótimo “Barata Ribeiro 716” (2016). O joie de vivre do protagonista encanta e diverte o diretor. Mais que isso, reverbera sua própria postura diante da vida.

 

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