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Propriedade

Propriedade

Cinema de conflito

Wallace Andrioli - 14 de dezembro de 2023

Propriedade é um thriller sobre luta de classes. E, como tal, o filme carrega uma série de tensões ao mesmo tempo limitadoras e possibilitadoras. O diretor e roteirista Daniel Bandeira conta a história de Tereza (Malu Galli), uma mulher rica de Recife que, traumatizada por ter sido vítima da violência urbana, se retira com o marido (Tavinho Teixeira) para a propriedade rural da família. Mas, lá, o casal encontra um cenário de revolta violenta dos trabalhadores da fazenda. Não há refúgio possível contra a luta de classes, uma vez que ela é estruturante das relações sociais, além de intensificada num país de desigualdades brutais (e escamoteadas pelo discurso da conciliação) como o Brasil.

Na maneira como apresenta e defende essa tese, Propriedade é um grande filme. Bandeira estabelece uma lógica de impasse que se torna insuperável conforme a violência escala. Nem a protagonista, nem o público, têm para onde fugir. É preciso lidar frontalmente com o conflito, sem meios termos. A construção da tensão entre os antagonistas de classe em alguns momentos de Propriedade é primorosa, revelando um diretor com pleno controle dos elementos de cena. Ao mesmo tempo, Bandeira consegue criar imagens muito fortes, que evocam diretamente esse estado das coisas conflituoso: a do epílogo, com os bois e o carro, é a mais emblemática nesse sentido, mas também podem ser lembradas a abertura do filme, em que a execução de um criminoso pela polícia é mostrada com a secura e a urgência de um registro amador; e a revelação gradual da carcaça de um cavalo de raça decapitado, enquanto em primeiro plano o assassino do animal se alimenta, exausto e com a camisa encharcada de sangue.

Propriedade busca um equilíbrio na apresentação das motivações dos personagens que se enfrentam, evitando um maniqueísmo imediato. No caso de Tereza, há o drama pessoal, o trauma e a vontade de sobreviver a uma situação de violência. Já no dos trabalhadores da fazenda, por mais que até apareçam aqui e ali dores e impulsos individuais – a viuvez de Tonha (Zuleika Ferreira), as repetidas agressões sofridas por Zildo (Anderson Cleber), o desejo de vingança de Dimas (Samuel Santos) –, prevalece a dimensão coletiva. É sua luta enquanto grupo pela posse da terra, pagamento justo e liberdade, com pitadas cada vez mais acentuadas de ódio de classe, que interessa primordialmente a Bandeira. Está aqui o maior desafio que o filme enfrenta: passar do individual ao coletivo, no sentido da produção de identificação. Tornar esse embate, aos olhos do espectador, efetivamente equilibrado.

Trata-se de um grande desafio porque o diretor/roteirista opta abertamente pelo registro de gênero, pelo thriller que, nos momentos mais agudos, flerta com o slasher. São exemplos disso Dimas perseguindo Tereza pelo curral, grunhindo como um animal selvagem, e a própria construção de Zildo como um homem violento e meio infantilizado (sempre protegido pelo primo), que remete a vilões clássicos do gênero – sobretudo os de Quadrilha de Sádicos (1977), também vítimas de um poder instituído, e O Massacre da Serra Elétrica (1974).

Além disso, Propriedade começa sob o ponto de vista de Tereza, apresentando seu sofrimento de forma densa, entendendo e respeitando sua dor, e frequentemente retorna a essa posição, se colocando com ela dentro do carro cercado. Como apontam Ella Shohat e Robert Stam em análise sobre situações de cerco no western clássico: “o ponto de vista segue a estrutura de círculos concêntricos. O círculo interno, humanizado […], é ameaçado por um segundo círculo de agressores, até que o círculo externo – a cavalaria – salva o primeiro círculo sitiado, aniquilando o círculo intermediário. O círculo externo, uma espécie de deus ex-machina colonial, executa uma ordem providencial ao circundar o cenário – um atalho cinematográfico para o genocídio. A possibilidade da empatia em relação aos índios é simplesmente descartada pelas convenções do ponto de vista; o espectador é, inconscientemente, enredado na perspectiva colonialista.” Ou seja, há para o espectador um caminho mais imediato de identificação, até pelo reconhecimento dessas referências de gênero acumuladas historicamente. E mesmo essa imagem da cavalaria é identificável na narrativa de Propriedade, nos vários momentos em que algum agente externo se aproxima, alimentando a expectativa de salvamento de Tereza.

Por outro lado, Bandeira reforça marcadores de que aquela fazenda já era palco de imensas violências antes da revolta, de que as relações de trabalho ali eram análogas à escravidão (as dívidas com o armazém da propriedade e a retenção dos documentos dos trabalhadores, a marca de ferro na mão de uma trabalhadora mais velha), apontando, portanto, para a justeza da intensidade da reação. E mesmo esse aspecto do olhar de Tereza organizando a diegese é problematizado numa breve cena, ainda no início de Propriedade, em que a protagonista observa e desenha os transeuntes de um posto de gasolina, tornando-os objetos de sua arte, até ser encarada duramente de volta, num gesto de contestação do domínio representativo de cima para baixo.

Essas tensões e contradições entre forma individualizante e discurso coletivista constituem um filme ambíguo, claudicante na escolha de um lado no conflito apresentado, mas, por isso mesmo, verdadeiramente interessante, instigante, provocador. Propriedade tem suas certezas, mas não tem certeza sobre tudo. Propriedade tem momentos não tão bons – a referida perseguição no curral, a relação entre Tereza e a jovem Iara (Luana Vitória) –, mas é, na maior parte do tempo, um grande filme.

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