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Universo Preto Paralelo

Universo Preto Paralelo

Wallace Andrioli - 2 de julho de 2018

O principal mérito de “Universo Preto Paralelo” é conseguir concretizar, em imagens, e com considerável eficiência discursiva, uma máxima repetida há tempos sobretudo pelas esquerdas: a do papel estrutural da escravidão na explicação da sociedade brasileira. O diretor Rubens Passaro faz isso de forma relativamente simples, mas também arriscada, sobrepondo uma série de imagens que ilustram a violência contra os escravos ao áudio de depoimentos prestados à Comissão Nacional da Verdade (CNV) – um de uma vítima do regime, Darci Miyaki, e um de um torturador, Paulo Malhães, além de análise de Maria Rita Kehl, psicóloga e membra da comissão, sobre o tema da tortura.

O risco maior está, claro, na simplificação histórica, decorrente da aproximação de realidades muito diversas, separadas no tempo por transformações significativas ocorridas entre 1888, ano da abolição da escravidão no Brasil, e 1964, início do regime militar. Desconsidera-se, por exemplo, o caráter sócio-cultural-racial da violência exercida sobre homens e mulheres negras ao longo de mais de três séculos como fator diferenciador em relação ao caso da repressão da ditadura aos participantes da luta armada, jovens majoritariamente brancos e de classe média, perseguidos exclusivamente por razões políticas.

No entanto, é preciso considerar que o objetivo primordial de Passaro com “Universo Preto Paralelo” não é se aprofundar em qualquer dessas duas experiências históricas, mas utilizá-las como caminho para chegar a uma terceira instância temporal, o presente, no qual a Polícia Militar tortura e mata majoritariamente negros e negras. Daí o título do filme formar a sigla UPP, remetendo, claro, às Unidades de Polícia Pacificadora do governo do Rio de Janeiro. Daí a poderosa rima criada no final de “Universo Preto Paralelo”, no qual a presença de Domingos Jorge Velho (bandeirante responsável por destruir o Quilombo dos Palmares no século XVII) numa cédula de dez mil réis da década de 1930 é seguida pelo infame pronunciamento de Jair Bolsonaro, defensor não só da justeza da ditadura militar brasileira como também das ações violentas da polícia contra populações periféricas, celebrando a memória do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Os séculos passam e o poder segue se gabando publicamente de exterminar seus inimigos, homenageando os responsáveis diretos por tais feitos.

Mas a sobreposição de cenas da escravidão e relatos de torturas durante a ditadura também abre espaço para outra reflexão, que dialoga exatamente com esse corte classista e racial que separa as duas realidades históricas: o Estado que visa a construir políticas públicas (sendo uma delas a própria Comissão Nacional da Verdade) de reparação em favor das vítimas (majoritariamente brancas e de classe média) dos militares é o mesmo que atua sobre negros e pobres quase exclusivamente através da violência de seu braço repressivo, a polícia. Para os primeiros, a CNV, para esses últimos, a UPP. Essa contraposição ganha força ao se observar que boa parte dos relatos de Miyaki e Malhães, que detalham as sevícias contra prisioneiros políticos nos anos 1960 e 1970, são quase perfeitamente ilustrados pelas imagens referentes à escravidão. Assim, ao mesmo tempo que marca a continuidade entre as duas formas de violência, Passaro possibilita o questionamento sobre o tratamento diferenciado dado às vítimas de cada uma delas – se os guerrilheiros sobreviventes conseguiram, em geral, retomar carreiras profissionais e políticas, com número razoável deles alcançado o poder (inclusive a presidência da República, com Rousseff), os ex-escravos e seus descendentes foram marginalizados, transformados em alvo preferencial do arbítrio estatal, tanto em tempos ditatoriais quanto democráticos.

O que “Universo Preto Paralelo faz, no fim das contas, é usar criativamente fontes históricas (sonoras e imagéticas) como meio para construir um discurso politicamente potente sobre o Brasil em três tempos diferentes. A história do país surge, no filme de Passaro, em movimento, aberta a reflexões livres que dialoguem com o presente – ainda que as temporalidades abordadas pelo diretor possuam conexões entre si em algum grau, não se tratando, portanto, de uma aproximação aleatória.

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