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Alien, o Oitavo Passageiro (1979)

Alien, o Oitavo Passageiro (1979)

Matheus Fiore - 4 de maio de 2017

Ao lado de Blade Runner, Alien é o grande marco artístico do renomado Ridley Scott. Bem antes do supervalorizado Gladiador, o britânico já mostrava ser um cineasta muito acima da média. Em seu sci-fi/terror de 1979 (apenas seu segundo filme), Scott nos deu um dos mais influentes filmes de horror de todos os tempos, principalmente graças à direção de arte com participação de H.R. Giger, que se tornou referência. Mas, muito além disso, Alien é uma verdadeira aula cinematográfica de construção de personagens, clima e enquadramentos.

Já nos créditos da abertura da obra vemos uma marca de Alien: a construção paciente. Nos planos que abrem o filme, há o lento surgimento das letras, que levam mais de um minuto para se revelarem e formarem o título do longa. Tal construção visual lenta gera apreensão, que é o sentimento básico para cativar o público que assiste ao terror do famoso xenomorfo. Mais adiante, o primeiro contato que temos com figuras humanas leva tempo. Ridley Scott escolhe passar vários planos que mostram a nave Nostromo. Após cinco minutos, vemos então a tripulação despertando da hibernação induzida.

Curiosamente, não há nenhum sinal da protagonista do filme até aqui. O espectador que assiste pela primeira vez, claro, não está ciente disso, pois ainda desconhece os personagens. Vemos um foco maior em Kane (John Hurt), e nenhum sinal de Ripley (Sigourney Weaver), a heroína. Mas, Ridley Scott não faz isso sem um propósito. O objetivo é claro: Ripley, no momento, é apenas mais uma tripulante da Nostromo, sua jornada para se tornar a protagonista e heroína do filme é construída cautelosamente, assim como a ascensão do vilão.

Perceba, por exemplo, na cena em que são apresentados os personagens na mesa de jantar, como a câmera acompanha o ambiente por um movimento panorâmico até chegar em Ripley. Quando alcança a futura heroína, a câmera de Scott muda seu movimento e gira em torno da personagem, começando a calcar sua importância na narrativa. Em outros momentos, quando a câmera enfoca vários personagens, Ripley está quase sempre no fundo do quadro, sempre sendo coadjuvante em relação aos outros, principalmente Dallas e Kane.

Nesse frame vemos um exemplo de como Ripley era sempre delegada ao fundo do campo.

O carinho do diretor com o desenvolvimento também é percebido ao constatarmos que o vilão que dá nome ao filme, o Alien, só entra em cena aos 56 minutos (!!!), em uma das mais belas cenas de introdução de vilão que me recordo de ter assistido. E é justamente nesta parte que há uma grande inversão na dinâmica do filme. Com a chegada do vilão, que muda o comportamento de todos os personagens a bordo. Ripley, então, passa a ser menos passiva e mais atuante, tentando resolver os problemas da nave, como mostra a colagem abaixo.

O momento exato em que Ripley desperta. A personagem começa o plano no fundo e vem até a parte frontal, enquanto outros dois personagens se deslocam para o fundo do campo.

Após a grande revelação, note como há uma enorme inversão de papéis no posicionamento dos atores. Ripley agora é o ponto de referência do quadro. E não há só a centralização da heroína, como os coadjuvantes estão diminuídos. Perceba como Dallas, o capitão, à esquerda, está desfocado. Ash, no fundo, olhava para o mesmo monitor que os personagens, mas se movimenta para sair do campo. Enquanto isso, os dois no canto direito inclinam os rostos para baixo, cabisbaixos, já deixando latente o medo que tomará conta de suas mentes. É, ao mesmo tempo, o declínio psicológico de parte da tripulação, a ascensão da heroína e uma indicação dos rumos do arco de Ash.

Já o clima de horror trabalhado a partir da metade final é uma verdadeira aula. Ao assistirmos à Alien, voltar a ver obras abjetas como Atividade Paranormal e filmes genéricos de bonecos possuídos chega a embrulhar o estomago. Se hoje o gênero se baseia em jumpscares, na obra que aqui analisamos o foco é a construção do clima ameaçador. A manutenção do silêncio dos personagens acompanhada por barulhos de gotas d’água e batimentos cardíacos cria a expectativa da chegada de algo ruim a qualquer momento. Também ajudam os planos com câmera subjetiva, que jogam o público na pele dos sobreviventes da nave.

A fotografia escurecida, que muitas vezes só é iluminada por baixas luzes diegéticas mas bem escondidas,  quase deixadas no extra-campo, fortalece tal atmosfera soturna já existente pelo design de som. Os planos close-up que focam nos rostos das vítimas do monstro também são muito eficientes na criação de uma sensação de vulnerabilidade. Para surpreender seu espectador, Scott sempre retrata seus atores observando o cenário em busca do Alien para, em seguida, nos mostrar com planos subjetivos o que estes vêem. Estes planos subjetivos, no entanto, chegam a trazer outros pontos de vista, confundindo o espectador e criando mais tensão. Em certos momentos, estamos sob a ótica do próprio Alien e até do gato mascote de Ripley, o que nos causa incerteza. Quando o ataque ocorre, porém, nunca somos avisados pelas reações dos personagens, que acabam descobrindo o paradeiro da criatura depois do próprio espectador (o que cria ainda mais tensão, já que nos faz torcer para os tripulantes de Nostromo detectarem o ser e fugirem).

E Scott não deixa a peteca cair nem no ato final do filme. Perceba, por exemplo, quando a protagonista acredita já estar longe da criatura, quando foge por uma das naves de fuga da Nostromo, como sem a necessidade de nenhum diálogo o filme consegue fragilizar sua heroína. Ripley, cansada e traumatizada com o terror que vivenciou, pela primeira vez baixa a guarda. Tal fragilidade é bem demonstrada ao mostrar a personagem se despindo, deixando seu corpo mais visível, criando uma vulnerabilidade visual. Situação perfeita, claro, para o vilão voltar a ataca-la desprevenida.

Alien não é só um bom filme de terror com ficção científica, é uma aula de cinema. Uma construção narrativa impecável que sabe desenvolver sua protagonista e seu antagonista com calma, guardando-os para praticamente a metade final da metragem. Ridley Scott aqui tem um bom roteiro em mãos e maximiza seus pontos fortes por ser capaz de dar sutileza aos momentos que poderiam ser mais expositivos (como as reações de Ash à qualquer possibilidade de ferimento aos alienígenas). Cinema é a arte da construção do tempo pelo audio-visual, e Scott sabe controlar tais elementos como poucos. O resultado é uma obra-prima do terror que merece ser revisitada e valorizada.

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