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Harry Potter e a Criança Amaldiçoada (Parte Dois)

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada (Parte Dois)

Gustavo Pereira - 7 de novembro de 2016

Se você ainda não leu a crítica da Parte Um, vai lá que eu te espero.

Eu escrevo muito, né?

Eu escrevo muito, né?

É difícil escrever sobre uma história da qual tanta gente desgostou, principalmente quando a gente mesmo não achou ruim. Mais difícil ainda é aceitar porque ela não conversa conosco da mesma forma que as sete anteriores.

Ainda tenho todos os problemas com o Ato Um que escrevi na crítica anterior. Ainda acho que muito do que foi escrito para a peça não veio da J.K. Rowling, provavelmente mais interessada em aprender a escrever numa nova mídia do que em se meter no trabalho dos outros (uma característica típica de pessoas modestas e educadas, como sua biografia deixa claro que ela é), e definitivamente não termino esta leitura afeiçoado a Alvo Severo Potter.

Mas, então, o que estamos fazendo aqui, não é mesmo?

Comecemos pela peça em si: o Ato Três é uma mistura de Sr. Ninguém com Corra Lola Corra, cada viagem no tempo provocando perturbações profundas na realidade. Apesar de clichê, não deixa de ser interessante perceber como a derrota de Voldemort foi decidida nos detalhes, como uma mínima perturbação poderia significar a vitória do lado das trevas. Compreendo as limitações para retratar isso no palco, mas gostaria de ver mais sobre este mundo alternativo onde Harry morreu. Já conhecendo a estrutura narrativa de quatro atos (“vamos fazer isso” – “deu errado” – “deu muito errado” – “vamos consertar tudo”), mais problemas teriam tornado a tensão mais interessante e dariam tempo para absorver o novo status quo. A resolução é rápida demais.

Se há um lado positivo nisso é que eu não aguentaria muito mais de Dolores Umbridge.

Fiz muita pesquisa no Tumblr antes de escrever esta crítica. Vi gente indignada com o fato de Draco Malfoy ser um pai “melhor” do que Harry. Acho que essa “mudança” foi a grande causadora da insatisfação dos leitores antigos. Mas me pergunto se a indignação vem da mudança em relação ao personagem dos livros ou em relação a nós mesmos.

Tenha um lixo de vida e seja um bom pai

Tenha um lixo de vida e seja um bom pai

Quando Relíquias da Morte foi publicado, Harry e eu tínhamos 17 anos. Muita gente cresceu junto com os livros, se identificando com os dramas paralelos de adolescentes a caminho da vida adulta. Era fácil entender como aquelas mentes funcionavam, porque eram idênticas às nossas. Ainda hoje, quando releio estes livros, lembro de mim nessa idade. A questão é que, agora, eu tenho 26 anos e Harry tem 37 (a maior parte da peça se desenrola com ele aos 40 anos!). Ele é casado e tem três filhos, experiências pelas quais eu ainda não passei. É duro admitir, mas Harry, Gina, Rony, Hermione e eu não temos mais a mesma sintonia fina. Eles passaram por experiências transformadoras que eu não consigo compreender sem também ter vivido.

Você só entende que o passado volta pra te assombrar à noite quando viveu o bastante

Você só entende que o passado volta pra te assombrar à noite quando viveu o bastante

Rony disse que eu vejo mais minha secretária Ethel do que ele. Acha que existe um momento em que tomamos uma decisão… mãe do ano ou… autoridade ministerial do ano?

Hermione. Ato Um – Cena Cinco

Harry é da Geração X, parte de “um grupo de jovens, aparentemente sem identidade, a enfrentar um incerto, mal definido, talvez hostil, futuro”, como definiu o escritor John Ulrich. Provavelmente, enfrentar Voldemort foi mais fácil do que enfrentar a paternidade (o próprio disse que pegar o ovo de ouro do Rabo-Córneo Húngaro foi menos traumático do que encontrar um par para o Baile de Inverno). Imagino, e realmente só posso imaginar, como é ser pai de três crianças da Geração Z, essencialmente anti-establishment e emocionalmente encastelada, quando se é um dos bruxos mais famosos do mundo, com um cargo importante no Ministério da Magia (sua melhor amiga é a própria Ministra), casado com uma correspondente do principal jornal do país e ex-jogadora profissional de Quadribol. Alvo não valoriza nada do que seu pai deu um duro danado para conquistar porque é típico da sua geração achar que o mundo é horrível e deveria ser do jeito que ela quer para ser melhor. É realmente tão óbvio assim que Harry seria um bom pai, analisando estes aspectos?

Como se aproximar de um filho que está além da sua capacidade de compreensão?

Como se aproximar de um filho que está além da sua capacidade de compreensão?

O fracasso acaba tornando a paternidade mais fácil para Draco: ele não tem nada para sufocar seu filho Escórpio, que acaba tendo mais empatia por ele do que Alvo por Harry. Draco não tem um cargo de prestígio ou um nome de respeito para zelar. Ele tem apenas o seu filho. Não é à toa que ele compreende a gravidade de tentar mudar o passado mesmo quando essa mudança lhe dá melhor status social. Ele e Draco valorizam a relação que tem porque ela é muito mais horizontal do que a de Harry com Alvo.

Escórpio vê em Draco uma figura paterna mais acessível do que Alvo vê em Harry

Escórpio vê em Draco uma figura paterna mais acessível do que Alvo vê em Harry

O Ato Quatro resolve a quizumba das viagens no tempo e coloca Harry de testemunha ocular do maior trauma de sua vida. Assim como no Ato Dois não podemos esquecer dos problemas do Ato Um, os desdobramentos do Ato Quatro estão calcados em uma revelação no mínimo controversa sobre personagens e filhos desconhecidos do Ato Três. Haverá quem goste e quem deteste. Eu acho que tudo isso é pretexto para tratar do drama de um pai e um filho que não conseguem se conectar. Uma história muito mais contida do que combater o Mal. E que vai tocar os adultos muito mais do que os jovens. Porque J.K. nos deus sete livros. Harry cresceu. E é a hora de emocionar nossos pais.

Mas o que me dá mais medo, Alvo Severo Potter, é ser seu pai. Porque aqui eu estou operando sem guia nenhum. A maioria das pessoas pelo menos teve um pai para servir de base… e ou tentam ser, ou tentam não ser. Eu não tive nada… ou muito pouco. Então estou aprendendo, está bem? E vou tentar com tudo o que tenho… ser um bom pai para você.

Harry. Ato Quatro – Cena Quinze

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