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A Guerra dos Sexos

A Guerra dos Sexos

Matheus Fiore - 3 de outubro de 2017

Ao fim de uma partida de tênis, é tradicional que os dois jogadores se cumprimentem no centro da quadra, cada um em sua parte, separados pela rede. É emblemático, então, que em A Guerra dos Sexos, após uma partida mista na qual o ex-campeão Bobby Riggs derrota uma mulher, que o tenista salte a rede e vá até o outro lado da quadra cumprimentar sua oponente, invadindo seu espaço e a sufocando. Ainda mais simbólico é, quando no final do longa, haja a inserção de um registro fotográfico de Riggs tendo o mesmo comportamento na vida real. Com o ato sendo construído na narrativa e apresentado como fato histórico, a dupla diretora composta por Jonathan Dayton e Valerie Faris explicita a ideia da obra ao espectador: A Guerra dos Sexos é um drama biográfico que, por mais absurdo que possa soar nos machismos apresentados, é assustadoramente real e, assim como o ótimo Detroit, nos faz pensar em quão pouco a sociedade ocidental evoluiu nas últimas décadas.

No centro de A Guerra dos Sexos, há a protagonista vivida por Emma Stone, Billie Jean King, lendária tenista americana que, após revoltar-se contra a diferença na premiação para campeões nos torneios femininos e masculinos – enquanto as mulheres recebiam mil e quinhentos dólares, os homens recebiam absurdos doze mil dólares, quantia oito vezes maior -, decide começar seu próprio campeonato, exclusivo para mulheres. Paralelo a isso, o tenista aposentado Bobby Riggs (elevado ao máximo da caricatura pelo carismático Steve Carell) decide começar seu próprio desafio de tênis, convidando as melhores competidoras femininas a derrotarem-no em troca de um prêmio financeiro. Com o inevitável embate entre King e Riggs, toda a audiência dos Estados Unidos se volta para a partida, que, pelas diferenças sociais da época, acaba se tornando uma verdadeira batalha dos sexos, na qual os homens querem provar sua “superioridade” enquanto as mulheres buscam conquistar respeito.

O caso de A Guerra dos Sexos é similar ao do interessante Fome de Poder, no qual a história por trás da rede de fast foot McDonald’s é desenhada por uma trama excessivamente previsível, mesmo que tecnicamente eficiente. Aqui, porém, a obra depende mais da história do que da qualidade com que ela é contada, o que impede que o filme de Dayton e Faris se destaque por sua linguagem. Nos três atos, o impacto do público depende exclusivamente de viradas que não só são esperadas, como conhecidas por qualquer um que já tenha algum conhecimento prévio sobre a história. A falta de foco atrapalha o filme, tanto em seu desenvolvimento narrativo, quanto na construção do clímax: na primeira metade, o mundo do tênis é apenas um background para discussões sobre igualdade de gênero, na segunda, a obra torna-se quase um filme esportivo, com direito a um clímax que consiste basicamente em uma partida de tênis excessivamente fria – já que os diretores escolhem deixar o público no papel de telespectador, que assiste à partida de forma distante, pela televisão, quando o mais impactante seria ao menos mesclar tal abordagem com uma direção mais incisiva, levando o espectador para o centro do jogo final.

Ao abordar o machismo presente na América dos anos 70 (que não difere muito do Brasil de 2017), A Guerra dos Sexos escolhe fazer um retrato bem binário da sociedade. Não interessa à obra explorar os pequenos machismos da sociedade, disfarçados e até escondidos em momentos efêmeros do dia-a-dia. Dayton e Faries escolhem apostar apenas no impacto: há o poderoso engravatado que acredita que as mulheres sejam biologicamente inferiores aos homens, o tenista aposentado que quer “mandar as mulheres de volta para a cozinha”, e até a mulher que, criada na sociedade falocêntrica, torna-se uma “operária” do machismo, defendendo uma ideologia conservadora. É uma escolha válida, mas que, além de esquecer qualquer sutileza, não abala principalmente pelo fato de nunca vermos as mulheres abaladas pelo preconceito que sofrem.

Se falta sutileza no estabelecimento do machismo, sobra quando a obra trata da homossexualidade de sua protagonista, que, inicialmente, surge implícita graças ao excelente trabalho de som e mudança de enquadramentos. Quando diante de Marilyn, que na vida real, veio a ser sua companheira no futuro, Billie Jean King passa a ser fotografada em planos mais fechados, que capturam seu sorriso e olhar inocentes e fragilizados diante do inesperado sentimento. A edição de som ajuda, permitindo que as cenas comecem com muitos barulhos de objetos e diálogos atravessados, até que os sufoca em prol do enaltecimento dos sentimentos de King, o que permite que sua relação com Marilyn salte à tela. Este relacionamento, porém, acaba pouco desenvolvido pelo excesso de contemplação visual e escassez de conflito e diálogos, o que faz com que a sexualidade da protagonista seja só mais um dos vários assuntos com que A Guerra dos Sexos flerta,  mas não aprofunda.

Se a obra não faz questão de trazer para a superfície alguns dos debates menos óbvios relacionados a desigualdade de gênero, pelo menos o espectador mais atento poderá fazer, por si só, os questionamentos necessários acerca do tema. Billie Jean King, por exemplo, sofre para conseguir financiar seu torneio, mesmo sendo a melhor tenista do mundo naquele momento, enquanto Bobby Riggs, um tenista há muito já aposentado, consegue que seu espalhafatoso e inútil desafio torne-se o maior evento televisivo do país. A Guerra dos Sexos traz muitos pensamentos pertinentes, mas os deixa em segundo plano. São, claro, escolhas de Dayton e Faris, que fazem com que a discussão se torne um adereço na desfocada trama sobre a lendária tenista, mas que fazem com que o longa seja, ao fim do dia, só mais uma biografia com pretensões “Oscarizadas” e sem muito interesse em acrescentar ao debate sobre sexismo.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival do Rio de 2017.

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