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Ferrari

Ferrari

Da pulsão de morte à escolha da vida como legado

Matheus Fiore - 22 de fevereiro de 2024

Como todo bom filme feito por um bom cineasta, o Ferrari de Michael Mann de prontidão rejeita olhares moralistas para seus personagens. Eles são o que são e o interesse do diretor está muito mais direcionado a entender como eles funcionam e como reagem ao que os cerca. De primeira, chama atenção como Mann não faz cerimônia para mostrar como Enzo é uma figura dúbia. Vive uma vida dupla e não sente qualquer remorso por trair e enganar sua esposa, independente das dores não cicatrizadas que habitam seu lar. 

O que se cria desde a sequência inicial, quando vemos o personagem dividindo seu tempo entre suas duas famílias e o trabalho, é uma dialética muito interessante, na qual Enzo reage de maneira mecânica e prática para tudo que a vida lhe apresenta. Tudo é ação e reação, destruição e reconstrução – carros, impérios, famílias, amores. O fundador da Ferrari se vê como um artesão e diz que não disputa corridas para vender carros, mas vende carros para disputar corridas. O problema é que, em crise diante da iminente falência, o empresário percebe que vender carros é a única solução. Não mais um artesão, Enzo passa a operar em prol da lógica do capital, disposto a qualquer coisa para dar continuidade a seu legado.

O interessante nisso é que, se até esse ponto do filme, havia uma certa recusa de Enzo sobre o destino de seu império em um mundo cada vez mais capitalista, a partir dali, a sensação predominante é de que o protagonista aceita e embarca no jogo e cria sua própria maldição. Com isso, a tragédia se avizinha e pode estar na próxima curva. O destino parece estar traçado e o máximo que o empresário pode fazer é poupar o máximo de vidas e manter o máximo de pessoas que puder em sua vida. A escolha pela corrida em prol da lógica de mercado se prova uma maldição, que pode até resultar na mitificação de Enzo e da Ferrari, mas que a nível pessoal, pode ter custos altíssimos. Todos os personagens parecem enclausurados nessa corrida eterna contra a morte, cientes de que estão sempre a uma marcha quebrada de perder, mas aceitando de forma até condescendente seus destinos.

Enzo trata como seus funcionários como peças descartáveis, substituíveis como um motor – novamente a questão da lógica do capital acima de tudo. Pilotos morrem em testes e não leva mais do que alguns segundos para o protagonista encontrar um substituto (e vale notar, nenhum deles parece se incomodar com isso). É uma tragédia que se constrói lenta e silenciosamente, que não poderia ter outro destino se não o que vemos no clímax do filme. É de um acerto brilhante o uso do slow motion em uma cena chave do filme, pois os cadáveres enfileirados e o rastro de sangue deixado pela cruzada de Enzo Ferrari contra a falência são o que permitem que o personagem entenda que seu legado não deve ser passado pelo trabalho, mas pela vida.

É linda a forma como Mann decide encerrar seu filme: uma cena em que, pela primeira vez, o personagem reduz a marcha e trata Piero como seu filho e como criança, que precisa ser guiada e ouvida. No fim, o maior legado de Enzo Ferrari não são seus carros, mas o homem que formou como filho. O sujeito que viveu cercado pela morte (do pai, do irmão, do filho, dos pilotos e até do sonho) escolheu abraçar a vida. Se antes o mausoléu de Dino era um espaço apenas de desabafo e lamento, ele passa a ser um espaço de memória e aprendizado. O que considero fascinante nesse momento é como Mann não recorre à obviedade de migrar para uma fotografia mais vívida, mas manter a paleta sépia e rígida que já existia no filme. Algo mudou em Enzo, mas no mundo, não. O máximo que ele pode fazer é deixar o legado para Piero. A partir desse ponto, morte deixa de ser uma pulsão, uma busca quase suicida, e se torna uma recordação, uma peça na construção de seu legado – não empresarial, mas pessoal, humano. O legado passa a ser, finalmente, a vida.

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