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Mamonas Assassinas – O Filme

Mamonas Assassinas – O Filme

A Série B das cinebiografias musicais

Wallace Andrioli - 26 de dezembro de 2023

Mamonas Assassinas – O Filme poderia ser só mais uma cinebiografia musical como tantas produzidas todos os anos no Brasil. Mas nem esse nível de mediocridade o filme de Edson Spinello alcança. Ao contar a história do quinteto de Guarulhos que, entre 1995 e 1996, obteve imensa popularidade, até morrer tragicamente num acidente de avião, o diretor faz uma sucessão de escolhas erradas que chega a impressionar. A começar por tentar realizar um filme com “padrão Globo de qualidade” quando o valor de produção está, no máximo, num patamar das novelas da Record. Mamonas Assassinas se leva a sério demais sem condições para tal, ainda mais sendo sobre um grupo de artistas que, antes de qualquer coisa, trabalhava com a lógica da avacalhação.

O filme de Spinello, portanto, poderia ser minimamente interessante caso optasse por algum caminho autoconsciente e autoirônico, em que a própria precariedade fosse incorporada à narrativa. No entanto, a opção do diretor é por uma dramaturgia rasteira que se quer de verdade, com cenas risíveis que deveriam conter momentos dramáticos importantes (toda a questão do triângulo amoroso envolvendo os irmãos Reoli, a conversa de Dinho com o pai). Os atores e o texto são ruins demais, ainda que a presença carismática e enérgica de Ruy Brissac, intérprete do líder da banda, seja um ponto positivo.

E Mamonas Assassinas tem ainda um elemento inusitado: um considerável teor sexual, advindo de como os corpos dos atores são filmados – especialmente o de Rhener Freitas, que vive o baterista Sergio. Esse é outro aspecto que poderia dar ao filme uma cara própria, destoante criativamente do senso comum das cinebiografias musicais, se Spinello conseguisse tornar a sexualidade exacerbada um vetor efetivamente expressivo ou, ao menos, deixar claro o papel que ela exercia na história da banda. Os Mamonas Assassinas cantavam reiteradamente o sexo? Seus componentes costumavam ser fetichizados pela imprensa como corpos desejáveis? Não, ao menos não a ponto desse ser um traço marcante da breve trajetória musical dos cinco rapazes. Então fica a impressão de que o diretor faz simplesmente um gesto apelativo, ao escolher atores bonitos e com a musculação em dia para alguns dos papeis principais. E, mesmo na gratuidade, faltam momentos de verdadeiro tesão.

Resta ao filme o apelo nostálgico a uma geração que cresceu nos anos 1990 e se lembra bem do fenômeno Mamonas Assassinas. Não há dúvida de que ouvir as canções marcantes do grupo traz memórias confortáveis de um passado já meio longínquo para os jovens adultos na casa dos quarenta. Mas só isso, ainda mais organizado por uma mise-en-scène pedestre e atuações engessadas, é muito pouco, quase nada. E Spinello ainda fracassa no intento de tornar palpável o impacto da banda na mídia brasileira da época. Tudo é apressado demais, esquemático demais, mal filmado demais. Faltam criatividade, deboche e energia, exatamente o que, em suma, sobrava nos Mamonas Assassinas.

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