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Megarrrômantico

Megarrrômantico

Empoderamento feminino, fisicalidade e espontaneidade fazem do filme uma comédia bem sucedida

Matheus Fiore - 1 de março de 2019

Comédias românticas tiveram seu auge nos anos 90 e 00, mas parecem não estar performando tão bem nas bilheterias na atual década. Nos anos 10, se tornou comum que filmes do tipo satirizem suas próprias fórmulas e estruturas, mesmo que ainda sejam reféns de muitos clichês do gênero. “Megarrromântico”, filme original Netflix dirigido por Todd Strauss-Schulson, é um dos que tentam desconstruir o subgênero. Porém, diferentemente de boa parte das obras que propõem tal desconstrução, “Megarrromântico” dá alguns passos além e proporciona uma experiência cheia de personalidade e carisma.

A trama gira em torno de Natalie (Rebel Wilson), uma arquiteta do Brooklyn que, por viver em uma sociedade com padrões estéticos tão bem definidos, sente que nunca encontrará um amor de verdade por não se enquadrar nesses padrões. Natalie constantemente critica os filmes aos quais sua assistente assiste, justamente por perpetuarem essa ideia romantizada por Hollywood de amor e pessoas “perfeitas”. Um dia, Natalie sofre um acidente e, ao acordar no hospital, se vê em um mundo ultra romantizado, exagerado até mesmo para os padrões das comédias românticas. A partir disso, Natalie entra em uma jornada para compreender como chegou a tal mundo e como pode sair dele.

O primeiro ato do filme é extremamente competente em estabelecer os conceitos que cimentarão todos os acontecimentos posteriores da narrativa. A ideia de Strauss-Schulson é estabelecer três ideias: a primeira é a de que Natalie é uma pessoa normal, como qualquer outra moradora de Nova Iorque; a segunda é a de que, mesmo assim, a personagem parece ter um bloqueio mental que a impede de se ver como a pessoa normal que é; a terceira é a de que a protagonista perpetua, de maneira inconsciente, seu próprio isolamento.

A normalidade de Natalie é construída de diversas formas. O fato de o filme nos mostrar a rotina normal que a personagem segue evidencia isso. Mas, mais do que a rotina, a normalidade aparece na forma como essa jornada diária da personagem é filmada – há, por exemplo, o clássico plano da personagem andando no meio de uma multidão até misturar-se e sumir da vista do espectador. Uma segunda forma, porém, é ainda mais atrativa, porque é o bloqueio que impede Natalie de perceber o mundo como ele realmente é, sempre escolhendo ficar em um lugar inferior ao dos outros e não se mobilizando para mudar sua posição na sociedade. É interessante que o filme comece com uma cena de “Uma Linda Mulher” e que tenha, logo em seguida, o choque da cena da mãe de Natalie a educando para não acreditar em filmes como esse, pois o fato de a própria Natalie, quando adulta, agir da mesma forma quando vê sua amiga assistindo à comédias românticas, mostra como a bronca da mãe se tornou um trauma, um elemento limitador de sua percepção da realidade.

Já a terceira ideia é desenvolvida de forma sutil, geralmente pela movimentação dos personagens e até mesmo pela forma como eles se posicionam no cenário. É interessante observar que a protagonista trabalha de costas para todos no escritório e de frente para uma janela com um cartaz de uma modelo no prédio a sua frente. É uma sutil e eficiente maneira de estabelecer como a personagem, além de se sentir excluída, faz também um esforço para se fechar para o cenário onde está e, sem perceber, evidencia seu desejo de fuga, por manter-se próxima da janela. Já a movimentação dos personagens é importante, pois percebemos que, quando Natalie está em ambientes “seguros”, com seus amigos, é uma moça extrovertida, que gesticula bastante, mas, entre seus chefes ou desconhecidos, age de forma mais contida.

A questão da movimentação de Natalie abre espaço ainda para falarmos de outra qualidade de “Megarrromântico” (e que talvez seja sua maior), que é a fisicalidade da obra. Inicialmente, a fisicalidade é uma forma de oprimir a personagem. Em um momento do primeiro ato, um sujeito pede ajuda de Natalie para que, com o seu corpo, a arquiteta impeça que um carrinho desgovernado desça a rua. É bem cimentada, então, essa ideia de que momentos físicos, inicialmente, existem mais para diminuir ou humilhar a personagem. O que acontece, porém, é que aos poucos Natalie passa por um arco de desenvolvimento e chega a protagonizar, mais de uma vez, números musicais dançantes. É, portanto, um empoderamento não só psicológico, mas físico, de uma personagem que inicialmente era humilhada por sua aparência e, então, passa a utilizar o mesmo elemento de forma positiva.

É uma pena que haja, aqui e ali, algumas obviedades e coincidências do roteiro co-escrito por Erin Cardillo, Dana Fox e Katie Silberman, mas mesmo assim, é difícil não reconhecer os méritos de um filme que consegue utilizar uma personagem que, normalmente, seria relegada ao papel de coadjuvante, servindo como alívio cômico, e seguir por um caminho oposto. A Natalie é uma personagem que, mesmo estando fora do padrão físico da sociedade, consegue aceitar-se e encontrar, com amor próprio, uma forma de transformar aquilo que a oprimia em algo positivo e artístico, como a dança.

O que temos com “Megarromântico” é um filme que não só desafia e desdenha dos padrões cinematográficos das comédias românticas, mas busca aprofundar a questão e desconstruir até mesmo as limitações impostas pela sociedade, que costuma ver pessoas com corpos maiores como pessoas necessariamente de pouca mobilidade, sedentárias. O melhor de tudo: realiza essas ações de forma cinematográfica, utilizando uma tradição física em um tempo em que o cinema do gênero está cada vez mais dependente de piadinhas curtas e esquecíveis.

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