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Nashville (1975)

Nashville (1975)

A americana musical de Robert Altman

Redação - 18 de Maio de 2020
Por João Oliveira

No epicentro da indústria musical estadunidense, Robert Altman investiga os mitos fundadores da “terra da liberdade” e mostra que não há verniz capaz de mascarar o quão problemática é a sociedade dos Estados Unidos.

Logo no começo da projeção, um carro de som nos alerta dizendo que é impossível escapar da política, pois ela está presente em todos os lugares, mesmo que a gente não queria se envolver com ela. Minutos depois, descobrimos que este carro pertence a um candidato à presidência da República que faz parte do Replacement Party, um amálgama entre republicanos e democratas, numa tentativa de representar o pior de ambos partidos. Esta cena inicial já dá indicativo do que será do restante da narrativa.

Hal Philip Walker, o candidato centrista, é o protagonista invisível desta narrativa. Sua vinda à cidade é motivo para a organização de um comício com apresentação de diversos artistas e o longa-metragem retrata a vida de cada um destes cantores antes do evento. Em determinado momento, o filme explica o porquê da escolha da localização para o comício, dizendo que o candidato vencedor no Tennesse normalmente se elege presidente. Em Nashville, temos a maior afluência de artistas da música country no país. Com isso, indústria musical e política começam a se misturar.

Associar Nashville, música country e política é uma combinação perfeita escolhida por Altman. O country é um gênero folclórico, comumente associado à preservação do “american way of life”, é a música para americanos. Dessa forma, levar uma campanha política para o maior produtor de música verdadeiramente estadunidense é uma sacada precisa. Além disso, o diretor apresenta arquétipos de americanos médios através dos artistas e seus ciclos sociais. Há anarquistas, veteranos de guerra, conservadores, liberais, hippies, cristãos e ateus, todos com algum espaço e representação na tela.

O filme foi lançado em 1975, ano do término da Guerra do Vietnã, por isso, há muitos comentários a respeito do evento. Normalmente estas conversas ocorrem de modo corriqueiro, mas corroboram para o estabelecimento desse universo genuinamente norte-americano. Utilizando da ambiguidade como sua principal munição, Altman trabalha com contrapontos para evidenciar a pluralidade de perspectivas presentes no cenário nacional. Em relação à Guerra do Vietnã, vemos uma mulher saudosa da administração Kennedy e um veterano traumatizado pelo pós-guerra. Estas dicotomias estabelecem tom de celebração e sátira ao americanismo. Para contribuir com esta atmosfera, observamos constantemente o uso das cores da bandeira americana na fotografia e muitas vezes este símbolo está presente como objeto de cena.

Apoiado nesta ambiguidade constante, o longa-metragem trabalha seus números musicais como forma de dissociação da realidade. Estórias sobre preservação da família tradicional, de amor a Deus, a liberdade e o próprio país são cantadas enquanto a vida real mostra famílias adúlteras, culto à falsos ídolos, submissão à indústria musical e a falácia que é o sonho americano. Mesmo com um universo tão diverso de personagens, Altman arranja meios de inserir problemas em suas vidas, independente de seus pontos de vista. Portanto, o diretor insinua que uma representação de um microcosmo dos Estados Unidos é necessariamente problemática. É interessante notar a decadência na euforia da narrativa, que se inicia em tom celebrativo e aos poucos vai adquirindo tons mais cinzas, como se enunciasse uma tragédia.

O filme cede espaço para discussões a respeito da questão armamentista dos Estados Unidos, inserindo alguns diálogos a respeito desta política. A concretização do desastre ocorre e o comício eleitoral que une todos os personagens é bruscamente interrompido por um tiro de um atirador solitário. Um anônimo tenta encerrar uma festa democrática e manchar de sangue a celebração do americanismo, mas a reação imediata dos presentes é continuar a apresentação. Nem mesmo uma tentativa de assassinato é capaz de encerrar o evento, o tratamento indiferente ao tiro mostra o quão corriqueiro isto é para a sociedade americana, deixando parecer que este ato brutal faz parte de todo o show.

O choque do tiro imediatamente é amaciado pela doce canção de Barbara Harris que hipnotiza o público, fazendo todos ignorarem o ocorrido. A letra composta pelo elenco do filme (assim como as demais músicas), brada “você pode me dizer que não sou livre, isso não me preocupa” e todos cantam em coro até a subida dos créditos. O momento da comunhão de todos os personagens se torna um culto à ignorância e a música mais uma vez mascara os problemas dos Estados Unidos. Mesmo que da maneira mais inumana possível, a terra da liberdade sempre arranja artifícios para envernizar seus problemas e fazer o concerto seguir.

Após quarenta e cinco anos de sua estreia, “Nashville” pode ser considerada, assim como a música country, uma obra pertencente ao folclore americano. O filme realiza uma sátira precisa ao americanismo e suas críticas possuem reflexos claros nos dias atuais, com a política de produção em massa da indústria do entretenimento, com os crescentes casos de atiradores solitários, entre outros. É um estudo preciso sobre a sociedade estadunidense e uma demonstração incisiva do quão manchado é o sonho americano. É uma fábula contemporânea que consegue registrar os horrores deste país e de sua indústria musical e a moral que podemos extrair é que o show, independente do que aconteça, precisa continuar.

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