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Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

Matheus Fiore - 17 de outubro de 2017

De maneira extremamente equivocada, atores vindos da comédia costumam ser subestimados por público e parte da crítica. Há de se lembrar que alguns dos nomes mais importantes da história do cinema vieram do humor, como Buster Keaton e Charles Chaplin. Pela dificuldade da comédia, o ator que nela tem sucesso tende a ser capaz de exercer sua função em qualquer gênero. Dois dos nomes mais menosprezados da atualidade são justamente atores do gênero: Ben Stiller e Adam Sandler. Claro, eles merecem todos os questionamentos. O histórico não ajuda, já que ambos não só criaram personas insuportáveis e repetitivas, como têm em seus históricos obras atrozes como Uma Noite no Museu e Zoolander (Stiller) e Gente Grande e Zohan (Sandler).

Em Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, a narrativa depende justamente das atuações da dupla Ben Stiller e Adam Sandler, e eles tiram de letra. Na história, acompanhamos recortes isolados de diferentes momentos da família Meyerowitz. Sandler vive Danny, irmão mais velho de uma família que gira em torno do pai, o artista egocêntrico Harold (Dustin Hoffman), que, por sua vez, sempre bajula Matthew (Stiller), o filho caçula. Ainda compõem o elenco a irmã de Danny e Matthew, Jean (Elizabeth Marvel) e a esposa de Harold, Maureen (Emma Thompson).

O que vemos durante a projeção é uma família já habituada com os defeitos e virtudes de cada personagem. Por exemplo: as cenas nas quais Harold demonstra desprezo por Danny e preferência por Matt nunca surpreendem Danny, que, graças à espantosa atuação de Sandler, traz sempre uma expressão introspectiva, interiorizando suas frustrações, o que acaba fazendo com que ele extravase em outros momentos, como suas constantes irritações no trânsito. Já com Jean, que claramente é a irmã mais afastada, é interessante a escolha de uma atuação fria por parte de Elizabeth Marvel, que mostra a concha construída para proteger a moça da falta de carinho que seu pai demonstra.

Já com Matt, a relação com o pai surge de maneira ainda mais sutil. Há uma clara rivalidade entre os personagens, já que Harold é artista, e, com exceção do próprio Matt, todos os familiares tentaram seguir seu rumo, seja na escultura, na música ou qualquer outra vertente artística. Matt virou um bem-sucedido homem de negócios, o que causa incômodo no personagem de Hoffman, já que ele não conseguiu influenciar seu filho – que se tornou mais bem sucedido que ele. Para Matt, porém, o legado de seu pai é claro: há uma busca por superar o progenitor. Por mais que demore para o personagem verbalizar sua rivalidade com seu pai, o figurino deixa isso expresso ao mostrar que ambos utilizam uma gravata roxa, evidenciando como Matthew, mesmo que inconscientemente, guia suas decisões de acordo com Harold.

Além dos atores, que imprimem em suas interpretações uma verdade digna de um filme de Hong Sang-soo, a montagem também é essencial para que o diretor exprima suas ideias. Os cortes secos entre passagens distintas surgem quase sempre em momentos de exaltação emocional dos personagens. Com isso, o montador imprime um tom de naturalidade para aquelas reações mais exaltadas, como se fossem – e são – parte da rotina de Danny, Matt e cia. Um momento de desabafo nunca é o clímax de uma cena, mas um trecho a ser cortado para que a obra siga para a próxima cena – o que faz com que Meyerowitz ganhe força não pelas explosões do elenco, mas pelas interiorizações. Além disso, a divisão em capítulos que se passam em distintos momentos da vida da família possibilita que Baumbach traga momentos de fragilidade emocional ou física de todos os personagens, mostrando ao espectador como os relacionamentos conturbados adoecem seus personagens.

Se, ao retratar dilemas familiares em Sonata de Outono, Bergman mostrou mãe e filha, Ingrid Bergman e Liv Ullman,  encontrando respostas por meio da exteriorização, em Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, Noah Baumbach decide mostrar como a interiorização se tornou parte da personalidade de seus personagens. Os medos e mágoas moldaram não só o caráter, mas o estilo de vida de Danny, Jean e Matt, eternamente presos ao legado do egocêntrico e manipulador Harold. Com isso, a obra pode soar anti-climática e até rasa, mas a força não está em mostrar o que é dito, e sim as consequências do que é dito. Em um ano de decepções da Netflix, eis que surge sua melhor pérola de 2017.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival do Rio de 2017.

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