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Intervenção: É Proibido Morrer

Intervenção: É Proibido Morrer

Tropa de Elite e o legado.

Michel Gutwilen - 24 de janeiro de 2022

O início do filme Intervenção até parece que vai focar numa dimensão bem interessante sobre a discussão da guerra às drogas, uma vez que olha para o policial enquanto mais um trabalhador normal de baixa renda e que não percebe estar sendo treinado para aniquilar sua própria classe. Dentro desta ideia, a narrativa começa promissora ao se transportar para a intimidade da casa da protagonista, ou em momentos quando quando mostra ela acordando às cinco da manhã para trabalhar e pegar trem. De mesmo modo, quando o roteiro cria uma problemática a partir da situação em que a avó que sem querer bota a farda da neta para lavar em público (pois se os moradores souberem que ela é policial, ela pode ser morta). Contudo, tudo isso não se transmite em peso através das imagens e também se dilui na narrativa.

Em atuações, de positivo há Marcos Palmeira, que faz um milagre trazendo complexidade para o único personagem que é possível dizer ser multidimensional no meio de tantos outros que são somente veículos para discurso pronto. Por outro lado, a Bianca Comparato até tenta criar alguns traços de personalidade para a protagonista, vide a gagueira nos momentos de nervosismo, mas é refém do que o texto quer fazer com sua personagem.

De resto, o filme desaba em vários aspectos. Em direção, Caio Cobra é estudante de José Padilha e seu realismo da câmera na mão, só que com um acréscimo de planos de drones horríveis que só afastam higienicamente o filme de uma proximidade humana com a favela (alguém realmente achou que era genial o plano do drone que começa na favela e vai se afastando para mostrar prédios da classe média ao fundo), aproximando-se de uma visão deslumbrada da classe média interessada em fazer planos plásticos daquela realidade social.

Se o roteiro parece olhar criticamente para certos aspectos do Tropa de Elite (ainda que com muitas contradições) — como no momento em que o personagem de Palmeira fala, quase rompendo a quarta parede, que o Cinema criou uma imagem falsa do BOPE —  a direção nas cenas pouco parece interessada em fazer escolhas estéticas morais. Inclusive, Cobra cai novamente nas armadilhas de Padilha ao filmar com muita energia e êxtase os momentos de confrontamento, como se vibrasse com o tiroteio e os corpos que caem. Neste sentido, há pouquíssimo peso emocional ou sequer a câmera passa muito tempo pelas vítimas daquela guerra, o que vale tanto para o policial de Babu Santana quanto para a menina que morre no confronto final.

A esta altura é chover no molhado, mas de todos os casos do cinema brasileiro contemporâneo popular, esse talvez seja um dos roteiros mais sem vergonha em abdicar completamente de qualquer esforço para que seus personagens pareçam dialogar ou brigar como pessoas normais, fazendo de seus atores apenas veículos para falarem frases impactantes e discursos educativos. É impossível olhar para os personagens do Marco Palmeira fazendo aquele discurso para TV ou a personagem Comparato no vídeo do celular e não enxergar os próprios roteiristas personificados neles falando suas opiniões. Ou seja, transforma-se o Cinema em vídeo institucional. E claro, seguindo o legado Tropa de Elite, também é preciso de uma cena literalmente didática em uma sala de aula, completamente aleatória na narrativa, em que se ensina os moradores (que são os espectadores) a usarem o celular em abordagens policiais.

Também não entendo muito em que lugar se quer chegar tematicamente e politicamente. Definitivamente, Intervenção é um filme de ideias caóticas que só podem ser geradas por uma tomada de consciência tardia e desorganizada de uma classe média que está aos poucos fazendo mea culpa de ter criado Tropa de Elite, mas ainda guarda várias opiniões conservadoras. Esse filme vai do progressismo feminista e do genocídio negro para uma defesa institucional da polícia e um ataque à mídia em questões de segundos.

Tampouco sei quais são as intenções do filme com a protagonista, cujas contradições internas parecem muito menos uma representação da complexidade do mundo real e mais um problema de roteiro. Afinal, parece que o roteiro faz de tudo para o espectador odiá-la a partir de suas ações. O que ela enxerga como idealismo na verdade se traduz muito mais como legalismo vazio e uma guarda da esquina com poder. Ou melhor, uma pobre que esqueceu que é tão pobre quanto quem ela persegue, o que também tem muito a ver implicitamente com a branquitude da protagonista, mas que tampouco é uma questão explorada no filme (seja como texto ou subtexto). Outra questão também mal resolvida do roteiro é como ele parece tentar apontar a PM como uma instituição corrupta e masculina (certamente é) e com sua ideia de salvação vindo de uma personagem feminina idealista, mas conforme a narrativa avança isso também parece um beco sem saída. Como se a PM fosse deixar de assassinar negro e pobre se tivesse só mulher nela.

Enquanto isso, a história é quase uma ode a negociabilidade e a malandragem dos policiais mais cascudos da corporação, que sabem fugir de guerras evitáveis. Assim, parece que a ideia de Intervenção era muito mais sobre ser uma ideia sistêmica de falência da guerra ao tráfico, mas acaba sendo traduzida erroneamente muito mais como uma cadeia de causa e consequência que começa a partir das ações individuais de uma policial idealista que se torna fascista sem perceber no processo. Aliás, chega-se a conclusão de que a personagem da Bianca Comparato é quase uma versão feminina do Gabriel Monteiro, o que fica mais engraçado ainda quando se lembra que sua ação final é achar que vai revolucionar a PM gravando um vídeo egocêntrico pro Youtube.

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