O Acampamento

O Acampamento

Matheus Fiore - 31 de agosto de 2017

O Acampamento é o tipo de filme que, se fosse professor, utilizaria para demonstrar o poder da montagem, técnica que é uma das mais importantes na estruturação da narrativa e no andamento da trama. Como dizia o saudoso Roger Ebert, mais importante do que a história que está sendo contada, é como ela está sendo contada. E Killing Ground (título original) é uma obra que constrói sua tensão mais na forma do que no conteúdo, funcionando tanto como um experimento de edição que, por sua montagem alternada, torna interessante um enredo que, a priori, é demasiadamente simples.

Ian e Sam são um casal australiano que decide aproveitar o reveillon para viajar a uma distante região e acampar. Ao chegar, percebem que já havia outra família no local, mas a barraca e o carro estão abandonados. A situação fica ainda mais estranha quando, ao caminhar na mata, o casal encontra Ollie, uma criança de dois anos, caminhando ferida e perdida. Paralelamente à viagem do casal, O Acampamento também trabalha a construção do núcleo de Chook e German, dois estranhos sujeitos que não parecem ter a melhor das intenções.

A grande sacada do filme é trabalhar duas linhas do tempo paralelas. Enquanto acompanhamos o casal protagonista na busca pela verdade sobre o desaparecimento da família, vemos também o que levou tal família a sumir, bem como a construção da conexão da dupla Chook e German com os incidentes. Por meio de uma montagem alternada, a obra começa a revelar os sinistros detalhes que envolvem a região onde os protagonistas estão, assim como passa a sugerir o envolvimento da dupla local com o caso.

A fim de garantir que o público compreenda os acontecimentos paralelos, O Acampamento faz conexões visuais por meio de objetos que ajudam o espectador a montar o quebra-cabeças. O celular que uma personagem utiliza para tirar uma foto, por exemplo, é o mesmo que mais tarde é utilizado por outra pessoa, bem como o chapéu de Ollie, que é encontrado na mata enquanto, na trama paralela, ainda está com a criança. O que cria-se com esta alternância da montagem é uma tensão no público que ainda é inexistente nos personagens, pois o espectador está sempre um passo a frente e passa a temer pelos rumos que Ian e Sam tomarão.

Fortalecendo a tensão, a fotografia também ganha força no segundo ato do filme. Em certo ponto, ainda desconhecemos a real natureza de alguns dos personagens, mas o jogo de cores deixa o espectador ainda mais tenso e intrigado quanto ao que está por vir. Em uma cena no banheiro, por exemplo, o enquadramento apertado, que cria um ambiente claustrofóbico, é acompanhado por uma luz amarela, que simboliza perigo, e cria a atmosfera do risco iminente de um ataque dos potenciais vilões. Também é bem utilizado o vermelho, que imprime tesão e violência quando Chook está prestes a atacar uma das personagens femininas do filme, expressando sua intenção de estupro sem que haja a necessidade de diálogos.

Próximo ao clímax do filme, a montagem volta a elevar a qualidade da obra ao retratar algo que ocorre de forma similar em dois momentos diferentes, alternando entre planos do passado e do presente, criando uma coesão visual bem como situando o público no que aconteceu e no que está para acontecer sem que precise de duas cenas para isso. Infelizmente, quando toda a trama é revelada e todos os personagens passam a compreender a gravidade e as nuances da situação, O Acampamento passa a ser apenas uma história convencional de perseguição e sobrevivência. O gigantesco clímax não se justifica, apoiando-se em clichês do gênero e escolhas pouco inteligentes dos personagens, fazendo com que a obra, como um todo, desvalorize todo o clima construído em sua primeira metade.

Com essa obra australiana temos um bom suspense, que sabe trabalhar a sugestão mais do que a exposição, fazendo com que a ideia dos acontecimentos brutais que ocorrem sejam mais impactantes do que as imagens em si, principalmente quando tem suas cenas acompanhadas pela trilha, que traz um crescente violino que impõe o clímax necessário. Uma pena que, após as revelações do ato central, a obra torne-se tão previsível e genérica. Sufocante e intenso, O Acampamento é um belo exercício de gênero que ganha força pelo bom uso da montagem.

 

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