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Star Wars: Os Últimos Jedi

Star Wars: Os Últimos Jedi

Matheus Fiore - 12 de dezembro de 2017

A saga Star Wars sempre foi tratada como a jornada dos Skywalker. Sempre protagonistas por onde passaram, os membros da família a todo tempo lideram os importantes confrontos interestelares da franquia. Rogue One: Uma História Star Wars é, provavelmente, a obra que mais tenta fugir disso, trazendo um recorte muito específico do império, mostrando o confronto não do alto das grandes naves do Império e da Rebelião, mas do solo, com seres de diferentes raças em combates violentos e sujos. Os Últimos Jedi começa seus confrontos de forma similar ao resto da saga, mas aos poucos vira suas lentes para situações “microscópicas” e torna a trama mais humana do que estamos acostumados. Não é a toa que o oitavo capítulo da saga Star Wars abre com um plano de uma grande nave vista de cima e termine com uma pessoa, de dentro de um planeta, observando uma nave passeando pelo céu, em perspectiva praticamente oposta.

A história segue os acontecimentos de O Despertar da Força, filme de 2015 dirigido por J.J. Abrams. Rey (Daisy Ridley) chega à ilha onde Luke Skywalker (Mark Hamill) se encontra exilado, enquanto Snoke (Andy Serkis) e seus subordinados, liderados pelo aprendiz Sith Kylo Ren (Adam Driver) e pelo general Hux (Domhnall Gleeson), estão na caça pelos remanescentes da rebelião liderada pela general Organa (Carrie Fisher). São estabelecidos, então, três linhas dramáticas: Rey precisa convencer o lendário Luke a treiná-la; Finn (John Boyega) e Poe (Oscar Isaac) precisam arrumar uma forma de impedir que as naves da Primeira Ordem continuem perseguindo os rebeldes; Kylo Ren precisa, enquanto extermina seus fantasmas do passado, provar-se um bom aprendiz do lado negro da força para seu mestre, Snoke.

Pode parecer muita coisa para um filme só, mas… É. É muita coisa para um filme só, mesmo com a enorme metragem de 152 minutos. Os Últimos Jedi, por conta do excesso de acontecimentos paralelos, é um filme um pouco inchado, e o montador Bob Ducsay é feliz ao “amaciar” o problema fazendo uso de muitos raccords, técnica que cria uma rima visual ou sonora entre planos que se sucedem. Como resultado, quase tudo no longa é “rimado”, as cenas se conectam por elementos similares, e isso cria não apenas um senso de urgência como também uma necessária continuidade, que permite que a longa duração do filme não seja tão sentida.

Outro elemento extraído diretamente de Rogue One e que é imprescindível em Os Últimos Jedé a criação de um terreno cinza, que substitui a maniqueísta visão de bem (Jedi) contra o mal (Sith). Se no filme de Gareth Edwards a solução foi dar o protagonismo a figuras dúbias, de ladrões a mercenários, na obra de Rian Johnson a busca pelo cinza que anula o binarismo existe na relação com a força. Como visto no trailer, Luke não pretende recomeçar a Ordem Jedi, mas encontrar um novo caminho. A busca por equilíbrio é existente também na relação entre Rey e Kylo Ren, que se comunicam através da força e, aos poucos, descobrem que, por trás do ódio mútuo, há semelhanças no contexto de ambos os personagens – o que, como também mostra o trailer, faz Kylo tentar seduzir Rey para aderir a seu lado da guerra.

O excesso de conteúdo a ser desenvolvido – principalmente no ato central – acaba impedindo que essa abordagem seja mais aprofundada. Os Últimos Jedi, porém, consegue virar suas lentes para questões interessantes, como a aceitação de que a rebelião não se constitui simplesmente de um grupo armado, mas de um ideal que deve ser plantado pelo universo – algo que a obra realiza com sucesso ao trazer personagens rebeldes espalhando a “palavra” pela galáxia e criando, em povos subjugados e escravizados, a chama de revolução que a galáxia precisa. Há também personagens que são pilar importantíssimo dessa relação, sendo eles porta-voz da ideia de que aquele universo fantástico não pode mais ser dividido apenas em Jedis e Siths, enaltecendo que a Força existe para e em todos, tirando sua classe Jedi do pedestal no qual estiveram por milênios..

Visualmente, o filme é impecável e fiel às obras anteriores. É interessante, por exemplo, como na ilha onde Luke está exilado, que a cor predominante seja o cinza (preto e branco somados), que pode ser conectado à busca por equilíbrio do lendário Jedi. A fotografia de Steve Yedlin é essencial para criar um ambiente maleável no local, que tem diferentes climas de acordo com o contexto dramático de cada cena. Quando há uma cena esperançosa ou otimista, haverá maior uso da luz do sol, representada pelo dourado. Já em momentos de dúvida ou dor, haverá uma fotografia azulada ou escurecida, geralmente acompanhada pela chuva. Já na sala do Líder Supremo Snoke, o misterioso lorde Sith, o cenário é inteiramente ocupado por uma cortina vermelha, que não só evoca a cor clássica dos vilões do universo Star Wars (presente inclusive em seus sabres de luz), como também imprime perigo e urgência nas cenas nas quais há algum conflito no ambiente.

Se, em O Despertar da Força, Luke Skywalker tem pouca participação, aqui não há do que reclamar. O roteiro não só torna o personagem peça central no confronto intergaláctico, como também encontra espaço para humanizar sua figura. Luke não é o jedi exemplar e sábio que se pode esperar, mas sim um ser humano falho, cheio de dúvidas, que, em vez de enfrentar seus fantasmas, os esconde no fundo do mar (como sua nave, submersa à beira da ilha). Assim como a figura dos Jedi é desmistificada, o mesmo é feito com Luke. A ordem dos lendários guerreiros da Força é exposta como sempre deveria ter sido ao longo das décadas: como um grupo de seres poderosos, mas, ora prepotentes, ora incompetentes, incapazes de detectar, por exemplo, o surgimento do mais poderoso Sith que já existiu: Darth Vader.

A desmistificação, porém, não se limita aos Jedi: os Sith também são trazidos como figuras autoindulgentes e arrogantes. Snoke, por exemplo, é uma figura que, ainda que poderosa, é incapaz de detectar as óbvias fragilidades em seu plano. Essa desconstrução é essencial para o surgimento de um novo horizonte para a série, que é o desligamento do passado (como diz Kylo Ren em cena presente no trailer: deixe o passado morrer, enterre-o se for preciso) e a construção de um novo futuro, que existe tanto nos Rebeldes (que querem destruir a Primeira Ordem e resgatar a democracia), quanto na Primeira Ordem, que traz vilões interessados em criar um novo tipo de autoritarismo.

O trabalho de desconstrução dos mitos está presente até na forma de expressar dos personagens. Luke, por exemplo, chega a referir-se ao seu sabre de luz como uma “espada laser”, expondo um desdém que torna latente seu descontentamento com o caminho Jedi que seguiu. Mesmo quando há a desmistificação, porém, a obra sabe quando respeitar seu cânone. Quando um diálogo menciona Darth Vader, por exemplo, a trilha de John Williams evoca o tema do personagem, mostrando a força de sua presença e legado, tanto na galáxia quanto em seu pupilo indireto, Kylo Ren. A mesma relação de respeito existe, inclusive, no humor: Os Últimos Jedi é o filme mais bem humorado da saga, mas em momento algum desrespeita o caráter de seus personagens. Podemos esperar piadas de Poe, Finn e Luke, por exemplo, mas Snoke e Kylo Ren são sempre pilares de frieza e crueldade, o que mantém coesão dramática e impede que a obra inteira vire uma peça de stand-up, como ocorre em alguns filmes da Marvel.

Não é uma obra perfeita. Nenhum filme da saga é. É uma aventura fantástica que, em certos momentos, se torna confusa pelo excesso de história a se contar, mas que consegue, sendo um blockbuster de 150 minutos, traçar interessantes estudos sobre opressão e poder, mostrando como a violência, às vezes, só é vista quando podemos dar um close-up em um momento específico, como quando um personagem visita uma cidade-cassino e, inicialmente, acha o lugar incrível, até perceber que, por trás do espetáculo visual, há uma camada da sociedade totalmente subjugada pelos poderosos empresários da indústria bélica – que, aliás, alimentam tanto a Primeira Ordem quanto a Rebelião, e isso desenvolve ainda mais a quebra do maniqueísmo.

O oitavo episódio da saga Star Wars escolhe ser um marco de transição, de conscientização da natureza inexoravelmente dúbia da galáxia, ao passo que desmistifica seus heróis e vilões para, lentamente, estabelecer novas figuras que, futuramente, poderão protagonizar as vindouras aventuras. É um filme que, muito mais do que preocupado em como trata seus mitos, está preocupado em por no quadro os efeitos da guerra nos civis, em mostrar que a rebelião não depende dos Jedi, mas sim de todo e qualquer ser vivo que tenha em si o desejo de participar da luta.

Os Últimos Jedi acerta por entender que a galáxia, no contexto representado, não é um lugar ideal, mesmo onde parece haver paz e igualdade. É um lugar onde, em qualquer canto, haverá um traço de opressão. Se, em Rogue OneJyn Erso diz que a solução para viver subjugada pelo Império é não olhar para cima para não ver as bandeiras, Os Últimos Jedi é o fio de esperança que força os habitantes da galáxia a olhar para cima, e procurar nos céus um sinal de esperança e luta. Que o filme possa, além de divertir, nos fazer também refletir sobre as mazelas de nosso mundo, que, se geograficamente é “muito, muito distante”, culturalmente não é bem assim.

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