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Luke Cage – 1ª temporada

Luke Cage – 1ª temporada

Gustavo Pereira - 3 de outubro de 2016

Luke Cage é grande, não apenas no tamanho e no poder. Fruto da Blaxpoitation, foi o primeiro super-herói negro a ter uma HQ própria. O conceito do herói de aluguel, urbano, preocupado com o microcosmo do Harlem, foi um marco na representatividade e na luta pelos direitos civis dos negros americanos.

Feito este preâmbulo, digo que a Netflix me desapontou. Um pouco. Carl Lucas tem material de sobra para criar uma temporada robusta, com tramas paralelas, cultura negra de periferia e crítica social. Mas, ao fim dos 13 episódios, só pude pensar que poderiam ser 8.

A série inicia promissora, respeitando a clássica estrutura da jornada do herói, inclusive com Luke (Mike Colter) negando o chamado à ação, algo que já estava estabelecido em Jessica Jones, e buscando uma vida pacata na barbearia de Pop (Frankie Faison). Um assalto no primeiro episódio compromete três jovens e Pop faz com que Luke ajude a salvar a vida de um deles, desencadeando uma espiral de acontecimentos que coloca Cage no centro da ação.

A ideia de um homem desafiando sozinho o crime organizado não é exatamente original, mesmo no Universo Marvel da Netflix. Diferente de Demolidor, que conta com um vilão do calibre do Rei do Crime, Cornell “Boca de Algodão” Stokes não tem o mesmo apelo. Nem a atuação do ótimo Mahershala Ali (House of Cards) consegue dar relevância ao personagem, que não tem tempo suficiente de tela para desenvolver seus dramas particulares.

A trama política, que também teria um grande elemento de crítica às instituições, é subaproveitada. A prima de Boca de Algodão, a vereadora Mariah Dillard não é bem representada por Alfre Woodard (mas dou o braço a torcer: ela não aparenta os 63 anos que tem), com alguns momentos bem caricatos. A policial Misty Knight, interpretada por uma decente Simone Missick, também não diz muito a que veio.

Mas, menos no elenco, a grande responsabilidade que dou para Luke Cage não ter me arrebatado está no roteiro. As grandes reviravoltas acontecem cedo demais, o que dá ao espectador a certeza de que essas crises serão superadas, pois ainda faltam muitos episódios. Os personagens menos promissores são exatamente os que recebem mais tempo de tela. O grande vilão da temporada, Willis “Kid Cascavel” Stryker (Erik LaRay Harvey, sofrível) tem uma motivação ridícula, melhor apenas que a de Electro em O Espetacular Homem-Aranha 2.

Como pontos positivos, além da atuação de Mike Colter e Frankie Faison, temos Rosario Dawson de volta, com mais episódios e importância do que em Demolidor ou Jessica Jones. Aspectos técnicos não são exatamente primorosos: a direção, tão criativa em Demolidor, aqui aposta em planos-detalhe e trocas constantes de câmera. Não existe uma construção elaborada nas cenas de ação. A fotografia mantém a unidade visual desta realidade urbana e noturna, mas não usa as cores como um recurso narrativo. Algumas composições são interessantes, como esta sobreposição de Boca de Algodão no quadro de Notorious B.I.G, “o rei de NY”.

"Todos querem ser o Rei"

“Todos querem ser o Rei”

O que está irrepreensível em Luke Cage, entretanto, é a trilha sonora. As melhores sequências são montadas como videoclipes. Quando Luke invade, sozinho, um depósito do crime organizado ao som de Wu Tang Clan, é simplesmente sensacional. Inclusive, deixo a trilha completa, episódio por episódio, aqui.

Alguns detalhes denotam capricho da produção, como os dois livros que Luke aparece lendo: O Homem Invisível, de Ralph Ellison, romance sobre um afro-americano cuja cor lhe dava invisibilidade, e Little Green, série de aventuras do detetive particular negro Easy Rawlings escrita por Walter Mosley. Não é completa porque seu nêmeses Kid Cascavel fala repetidas vezes que leu As 48 Leis do Poder, de Robert Greene, mas age como se nunca tivesse passado da capa. Algumas referências sobre xadrez também não colam.

Como saldo geral, Luke Cage deixa uma grande interrogação no ar para o futuro: temas relevantes como o racismo e a violência institucionalizada da polícia contra minorias, a apropriação das lutas raciais e de classe por políticos oportunistas e o papel da mídia na construção de narrativas são abordadas, mas não são desenvolvidas, não viram motores que movem a história pra frente, que muitas vezes se perde em flashbacks cafonas. Com um bom protagonista e a certeza de que ele voltará para a temporada de Os Defensores, esperemos que uma eventual segunda temporada faça o que esta não conseguiu.

 

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