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Certo Agora, Errado Antes

Certo Agora, Errado Antes

Matheus Fiore - 29 de junho de 2016

A vida é cheia de encontros e desencontros resultantes de escolhas tomadas em frações de segundos. Entrar na rua errada pode resultar em conhecer o amor da sua vida. Dizer a palavra errada pode te fazer perde-lo para sempre. E é justamente destes pequenos momentos que se trata o poético filme do diretor sul-coreano Hong Sang-soo, Certo Agora, Errado Antes.

A história acompanha o diretor de cinema Jung Jae-young (interpretado por Ham Chun-su), que viaja para Suwon para apresentar e falar sobre seu novo projeto em uma palestra. O problema é que o cineasta chega um dia antes do evento. Passeando pela cidade, acaba esbarrando com a bela pintora Kim Min-hee (Yoon Hee-jung). O filme é dividido em dois atos, ambos são possibilidades distintas para uma mesma situação: o encontro e florescimento do relacionamento dos artistas.

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O grande trunfo de Certo Agora, Errado Antes, sem dúvidas, é a genial direção de Hong Sang-soo. Inicialmente posicionados completamente opostos, os personagens têm seu relacionamento construído lenta e cuidadosamente. Como no quadro acima, é curioso notar como a personagem está com o corpo totalmente virado contrariamente ao diretor.

Não só com posicionamento dos atores, mas também com a distância entre eles, a direção consegue fazer a relação crescer muito organicamente. Em cada cena os atores são posicionados mais proximamente. Em um dos momentos a situação está praticamente invertida e podemos ver Kim curvada e inclinada na direção de Jung.

Para engrandecer ainda mais a qualidade do filme, Hong opta por longos planos sem cortes na maioria das conversas entre o “casal” protagonista. Alguns planos chegam a durar mais de dez minutos. A escolha pode parecer massante para alguns, mas funciona perfeitamente para construir o tom realista e rotineiro que o longa possui.

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Os dois encontros dos personagens possuem visões muito distintas. Em um, Jung é mais tímido e bondoso, tentando fazer tudo para agradar a pintora. No outro ele é mais incisivo e sincero, o que, obviamente, dá resultados diferentes. Um dos pontos mais interessantes do filme é vermos como pequenos gestos como um olhar, um toque ou uma simples frase pode mudar completamente o rumo da conversa (e do relacionamento).

A fotografia e a direção de arte são sutis mas extremamente importantes na construção das cenas. Nos primeiros encontros dos personagens, podemos notar o predomínio de uma paleta de cores frias e cenários vazios, sem vida. Conforme o sentimento cresce, vemos não só cenários mais cheios como uma paleta mais quente, avermelhada, simbolizando a ascendente paixão. Estes elementos somados à discreta (porém bela) trilha sonora e aos diálogos puros e lúdicos, enriquecem demais a película.

Certo Agora, Errado Antes  é um dos bons filmes que estrearam no Brasil em 2016 (internacionalmente foi lançado em 2015). Vencedor de multiplos prêmios (dentre eles o Leonardo de Ouro e cinco prêmios de atuação para Jung Jae-young), o longa é delicado, sensível e tende a despertar os sentimentos mais puros nos espectadores. Trabalha como poucos a simplicidade e efemeridade dos relacionamentos humanos.

 

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