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Pequeno Segredo

Pequeno Segredo

Matheus Fiore - 26 de setembro de 2016

A história de Kat Schürmann (menina que nasceu infectada com o vírus HIV) e sua família é belíssima, envolvendo grandes lições de humanidade, empatia, amor e solidariedade. Dez anos após o falecimento de Kat, seu irmão, o cineasta David Schürmann, lança Pequeno Segredo, contanto sua trajetória. Infelizmente, que poderia ser um filme emocionante, puro e sensível, acaba sendo um desastroso, com problemas desde a direção e roteiro até os aspectos mais técnicos.

Os problemas começam já na estrutura narrativa. O filme abre com um flashforward do que virá a ser o fechamento do longa, uma escolha de roteiro já usada exaustivamente para criar curiosidade no espectador. Após a abertura, somos apresentados à família Schürmann, com Kat e seus pais (Marcello Antony e Júlia Lemmertz). Já nas primeiras cenas vemos o festival de clichês que acorrentará toda a projeção. A menina que sofre bullying na escola, as colegas malvadas que a perseguem, a paixão de infância da protagonista… Todas as obviedades possíveis para uma história envolvendo uma estudante pré-adolescente estão lá.

Após a breve apresentação, surge mais um grande problema: a bruta montagem. Repentinamente o filme corta para a história de Robert, um neozelandês que mora no Pará e se apaixona por Jeanne, uma jovem local. Assim como na trama de Kat, esta está recheada de clichês. Para quem conhece a história dos Schürmann, a existência desse segundo plot é compreensível e necessária. Porém, logo em seguida nos é apresentado um terceiro núcleo narrativo, o dos pais de Robert, que é totalmente desinteressante, desnecessário e serve apenas para inchar o longa.

A existência dessas três tramas paralelas indica uma pesada inspiração em filmes como Crash e Babel. Mas o diretor David Schürmann não consegue ter a sutileza e dinamismo de Paul Haggis ou muito menos Alejandro González Iñarritú e encontra abissal dificuldade para dar coesão às três histórias. Para piorar, a má montagem faz os saltos entre as tramas ser seco, rompendo totalmente o ritmo do longa.

Schürmann também encontra problemas em dar intensidade aos diálogos. Sua direção é pouco criativa, muitas vezes se limitando a gravar diálogos inteiros apenas com close ups tanto no plano quanto no contraplano. A fotografia não ajuda e, aliada à direção, cria planos com movimento excessivo e desnecessário ou excessivamente estáticos, que apenas tornam a película mais desgastante visualmente.

E se os diálogos já são prejudicados pela má construção e condução dos planos, é impossível não notar o sentimentalismo barato que permeia os diálogos. Discursos entupidos de frases de efeito sobre o que é amor e o que é respeito tornam o filme piegas e apelativo. Discursos estes que, graças ao mau trabalho de direção de atores, não possuem a mínima emoção aparente no rosto dos intérpretes, mesmo que o diretor insista em filmar os rostos o mais próximo possível.

Voltando ao roteiro, este encontra mais problemas em sua estrutura. A fim de criar um certo mistério para o último ato, deixa muitas coisas mal explicadas nos dois primeiros. O resultado é um final extremamente expositivo, que vê a necessidade de explicar de mais e deixar o espectador absorver de menos. Além disso, peca no desenvolvimento dos personagens. Todos, sem exceção, são extremamente vazios. O romance entre Robert e Jeanne, por exemplo, é pouco crível. Não há sequer uma cena que desenvolva a personalidade ou o sentimento dos personagens, fazendo com que pareçam artificiais e superficiais.

Outro ponto extremamente prejudicial da narrativa é a obviedade. Quando personagem X afirma que não nomeu seu barco por não ter um, já sabemos que, adiante, o mesmo comprará e nomeará um barco homenageando personagem Y. Assim como podemos prever que quando outros dois personagens comentam algo triste sobre um terceiro personagem, este surgirá ouvindo a conversa escondido e brigará com os envolvidos, desencadeando a solução de um dos conflitos da trama.

Há ainda espaço para erros menores, como na maquiagem. Em certo momento, acompanhamos duas linhas do tempo distintas que são alternadas pela montagem. Não há, porém, qualquer tentativa de demonstrar envelhecimento dos personagens. Todos os envolvidos possuem a mesma aparência em ambos os momentos, que são separados por mais de uma década. Esta falta de capricho torna a passagem confusa e muitos podem demorar para notar que é um momento não-linear de Pequeno Segredo.

O terceiro ato se perde completamente e nos proporciona uma verdadeira aula de má montagem e edição. Prolongando mais do que o aceitável diversas cenas e conflitos e tentando a todo custo extrair uma lágrima do espectador, o clímax é gigantesco, com uma trilha sonora forçada e alternando cenas demais, voltando a tornar o filme cansativo.

Em suma: Pequeno Segredo não só não é o longa ideal para tentar levar o Brasil para o Oscar, como não consegue nem funcionar dentro de sua própria proposta. A obra é apelativa, sem vida e sem criatividade. Uma pena, pois a belíssima história de Kath Schürmann poderia render um bonito e importante filme, que não só prestaria uma digna homenagem como também serviria como ferramenta de conscientização e prevenção da aids.

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