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Fome de Poder

Fome de Poder

Matheus Fiore - 26 de março de 2017

Em certo momento, durante a projeção de Fome de Poder, me peguei fazendo a pergunta “afinal, por quê não acompanhamos a história do restaurante sob a perspectiva dos irmãos McDonald?”. Tal dúvida veio no momento em que os (verdadeiros) fundadores contavam sua história ao protagonista, Raymond Kroc (Michael Keaton). Mas não tardou para que eu compreendesse a escolha de centrar a narrativa justamente no “vilão”. Muito mais do que contar a história do restaurante, The Founder (título original) visa trazer à luz do público mais uma das milhares de histórias em que a ganância foi a força motriz que possibilitou o surgimento de um império.

Acompanhamos Ray Kroc, um vendedor de máquinas de milk-shake que certo dia descobre a pequena lanchonete dos irmãos McDonald em Los Angeles. Tendo larga experiência no ramo alimentício (Kroc cruza o país vendendo suas máquinas, sempre parando em lanchonetes locais para comer), o protagonista prontamente percebe a inteligência dos irmãos e o potencial de sua franquia. Seu objetivo, então, passa a ser transformar o restaurante em franquia e espalhar a marca por toda a América.

O enorme ego do protagonista é estabelecido já na cena inicial. Fome de Poder abre com um close-up no rosto de Kroc, usando uma profundidade de campo curta, que faz o público focar apenas em seu rosto enquanto ele tenta convencer um de seus potenciais clientes com seu papo de vendedor. Como esperado, o personagem não é tão grandioso quanto tenta ser. O plano seguinte já o enquadra cara a cara com o outro personagem enquanto este dispensa o produto de Kroc. E por quase todo o primeiro ato, o fracasso persegue Raymond por suas vendas.

Ao explorar a fragilidade do personagem, a direção de John Lee Hancock faz uma escolha interessante: além de filmar o personagem de costas, quando o retrata de frente, ele quase sempre está de cabeça baixa ou sob baixa iluminação, resultando em planos com o rosto do protagonista quase inteiramente escurecido. Além da persona vendedora de Ray, há um frágil e inseguro homem que teme seu fracasso mais do que qualquer coisa.

Hancock também acerta ao demonstrar outros picos emocionais de Ray apenas com enquadramentos e cores. Quando a primeira tentativa de franquear o McDonald’s falha, por exemplo, vemos o personagem tentando voltar à suas atividades anteriores em uma cena com planos dominados por tons azuis acompanhados pela chuva, que sem a necessidade dos diálogos, dizem ao público como o vendedor se sente. Há também o oposto, como quando Ray ouve as histórias dos McDonald ou conversa com os personagens em seu escritório, quando vemos o uso da luz do sol para criar uma aura dourada, que não só referencia às cores do McDonald’s como cria uma aura de sonho a ser alcançado por Kroc.

Apesar de nos poupar de diálogos para expressar os sentimentos do protagonista, o roteiro de Fome de Poder é o ponto baixo do filme. A previsibilidade da história e a repetição de conflitos entre Ray e os McDonald fazem o filme flertar com o tédio no ato central. Felizmente, até nos momentos mais cansativos a direção sabe extrair algo da obra, como nas discussões entre os personagens pelo telefone, quando vemos Kroc e Dick discutindo e, a cada ligação, Mac demonstrando mais incômodo com as “diferenças criativas” dos sócios, até que o personagem, nas últimas brigas, está mais próximo da câmera (antes limitava-se a ficar ao fundo perguntando o que estava acontecendo) e adentra a discussão.

A já mencionada boa fotografia também é importante para retratar as mudanças na relação do protagonista com sua esposa e outros personagens. Atente-se a como, por exemplo, Ray aparece cada vez mais “sufocado” nas cenas em seu lar, como se o personagem se sentisse grande demais para a simples vida que vivia. Acrescente a tal situação o inteligente uso do figurino: quando conhece Joan (Linda Cardellini), por exemplo, a moça veste um chamativo vestido vermelho na cena em que fisga a atenção de Raymond; na cena seguinte, quando o arrogante protagonista volta para casa, vemos o uso de um rosa desbotado na vestimenta de sua esposa, deixando clara a falta de interesse dele em sua companheira.

A alternância de cores predominantes também é perceptível entre estas cenas. Enquanto no jantar com Joan e futuros franqueados vemos a manutenção de cores quentes, com destaque para vermelho e dourado (amor, ouro e… McDonald’s), em casa vemos um pálido azul e muitas sombras. Conforme ascende profissionalmente e desenvolve sua persona gananciosa e arrogante, Raymond se desloca de sua única companheira e é capaz apenas de ver dinheiro e poder. Tal sentimento de engrandecimento também pode ser percebido nas cenas em que Ray visita algumas das novas lojas McDonald’s e é tratado como um rei. O uso do slow motion é eficaz não só para destacar a feição de deslumbre do personagem, mas também para criar um tom quase lúdico à tais momentos, mostrando como o “vendedor” sente-se endeusado nessas horas.

Mesmo sendo limitado pelo frágil e irregular roteiro, Fome de Poder surpreende pela qualidade de sua direção e fotografia, sendo capaz de não só fazer jus à história da maior rede de fast foot do planeta, mas também servir como uma completa lição de construção de sentimentos e climas por meio de cores e enquadramentos. Uma pena que o filme não tenha se aprofundado no forte viés crítico ao imperialismo americano como seria possível, mas ainda é capaz de funcionar como instrumento de análise de uma sociedade decadente que premia desonestidade e egoísmo. Uma coisa é certa: Hancock e Keaton souberam escolher muito bem o projeto e adicionaram trabalhos admiráveis em suas filmografias.

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