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Godzilla: Minus One

Godzilla: Minus One

Nada a esconder

Wallace Andrioli - 15 de dezembro de 2023

Godzilla: Minus One promove um casamento muito bem-sucedido entre filme de monstro e melodrama. O diretor Takashi Yamazaki não tem nada a esconder: com exceção da primeira cena, todas as outras da mítica criatura, surgida no cinema japonês dos anos 1950, são diurnas, gesto de autoconfiança na qualidade dos efeitos visuais e de conhecimento da expectativa espectatorial pela lógica da mostração. Ninguém vai ver um filme como esse desejando o breu e alguns poucos relances do monstro do título – o que era um dos maiores problemas de Godzilla (2014), de Gareth Edwards, ainda que existisse um conceito interessante por trás dessa escolha.

Yamazaki tampouco tem a esconder no campo das emoções. Godzilla: Minus One está verdadeiramente interessado em olhar para seus personagens humanos, que são tratados como muito mais que meros acessórios narrativos para os momentos espetaculares com Godzilla em cena. Kōichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki) é de fato protagonista do filme, seu drama pessoal não só importa como está no centro de tudo. E o tom adotado para ele é altíssimo. O personagem é um aviador kamikaze que, logo na abertura, desiste da sua missão suicida e falha em salvar seus companheiros de armas do primeiro ataque do monstro. Ele retorna desonrado para Tóquio, encontra a cidade devastada pela guerra recém-encerrada e sua família morta, mas consegue dar os primeiros passos para reconstruir a vida ao lado da jovem Noriko (Minami Hamabe) e da criança que ela carrega. Até que Godzilla ressurge.

A desonra, o sofrimento das perdas, o amor não verbalizado, os traumas e motivações, tudo que envolve Kōichi é exposto a olhos nus. Godzilla: Minus One é atravessado por gritos, choro, desespero, rompantes e sentimentos escancarados. A morte trágica no meio da trama que, ao final, se revela uma enganação. O melodrama é o cinema do visível e dos equívocos inevitavelmente desfeitos, como lembra Ismail Xavier. O sucesso do encontro entre essas características e o filme de monstro está, portanto, justamente no apelo do mostrar, na coerência da absurda presença em cena de uma criatura gigantesca com a exacerbação das emoções até níveis insuportáveis para sensibilidades habituadas ao realismo – e o ponto é que não há porque esperar de um exemplar desse subgênero atuações e dramas contidos, discretos.

Por fim, o elemento contextual, outro grande acerto de Godzilla: Minus One. Ao ambientar a história no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, Yamazaki limita as possibilidades tecnológicas para o enfrentamento ao monstro, não só em razão dos armamentos existentes em meados da década de 1940, mas também da condição concreta do Japão naquele momento, derrotado militarmente e materialmente devastado. A luta contra Godzilla é também pela reconstrução de uma sociedade esfacelada, humilhada e traumatizada, por encontrar um sentido coletivo de existência depois da tragédia absoluta. A criatura é o demônio providencial que surge para, num primeiro momento, reviver a dor dos japoneses e de Kōichi e, em seguida, possibilitar seu exorcismo, nos âmbitos coletivo e individual. A catarse do ato final, escalada de heroísmo, união e reencontro, espetáculo visual e explosão de emoções, é o ápice desse impecável jogo de escalas articulado pelo diretor, que faz o filme ser ao mesmo tempo sobre um homem e todo um país, ambos em busca de redenção.

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