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Menashe

Menashe

Matheus Fiore - 29 de novembro de 2017

Menashe poderia facilmente ser um documentário (como há um de mesmo tema disponível na Netflix, One of Us), mas a escolha do diretor Joshua Weinstein em fazer uma ficção não poderia ser mais acertada. O cinema, afinal, sempre foi uma máscara, que os autores vestem para permitir que a verdade fale. Com Menashe, Weinstein consegue mais do que contar uma boa história, consegue também apresentar uma interessante visão da comunidade judaica ultra-ortodoxa do Brooklyn, em Nova Iorque, uma das maiores comunidades ortodoxas do mundo fora de Israel, e, de quebra, versar sobre tabu.

Os recursos cinematográficos extremamente discretos e os personagens interpretados por pessoas que realmente vivem a realidade da narrativa tornam a obra real e, consequentemente, opressora e cruel. O filme acompanha Menashe, um jovem adulto que, recém-viúvo, tenta reconquistar o direito de criar seu filho de dez anos, já que, pela lei judia, nenhuma criança pode crescer em um lar que não seja comandado por um casal – e Menashe é relutante em entrar em um novo relacionamento, já que ainda está de luto pela perda de sua esposa.

Pela comunicação quase exclusivamente em iídiche, Menashe consegue o necessário deslocamento espacial do resto da cidade. Com isso, a comunidade não parece simplesmente um grupo espalhado pelo Brooklyn, mas um grupo excluído do resto de Nova Iorque. É interessante, porém, que, nos momentos em que Menashe mais se sente sufocado por sua comunidade, o personagem protagoniza cenas nas quais dialoga com colegas do trabalho, que se comunicam com ele justamente em inglês.

O visual dos personagens é elemento determinante na criação do deslocamento de Menashe. O protagonista, por exemplo, é o único personagem que quase nunca veste um chapéu, diferentemente dos colegas, que o usam todo o tempo. O sentimento de exclusão por parte do personagem principal também é construído com excelência pela escolha de planos do diretor, que opta por trazer muitos enquadramentos do personagem cabisbaixo, quase sempre com planos médios, primeiros ou close ups, mantendo a câmera sempre próxima e transformando em imagem o sentimento de sufocamento que permeia a rotina de Menashe.

Mesmo que o conservadorismo extremo da comunidade oprima o protagonista, o roteiro traz Menashe não como um ser perfeito, mas sim como um humano falho, ainda que injustiçado. A incapacidade de organizar um jantar entre os líderes de sua comunidade, por exemplo, mostra como o fracasso acompanha o rapaz, bem como sua irresponsabilidade com os horários das atividades do filho. Mantendo relações tão comuns do nosso dia-a-dia em meio a uma sociedade totalmente diferente, Menashe consegue ser ainda uma interessante análise sobre tabu e sobre as regras e normas morais que ditam uma sociedade e que, aos olhos de quem vive fora do contexto ultra-ortodoxo, não fazem sentido. Perceba, por exemplo, como a única justificativa para escolhas absurdas, como a impossibilidade de Menashe criar seu filho sozinho, é a lei judaica.

Ao retratar um contexto social tão específico, Weinstein faz com que Menashe seja uma obra intimista, que ganha enorme espontaneidade pelo fato de os intérpretes dos personagens realmente viverem o contexto judeu ortodoxo que no longa é retratado. Sem almejar fazer juízo moral, Menashe nos mostra tabu, luto e dramas familiares de forma limpa e direta. É, por sua pouca pretensão, uma obra eficiente, e que ajuda a mostrar quão rica é a diversidade cultural de uma cidade global como Nova Iorque.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival do Rio de 2017.

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