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Guava Island

Guava Island

Arte e capitalismo lutam por espaço

Matheus Fiore - 13 de abril de 2019

Com seus modestos 55 minutos de metragem, “Guava Island” não é um filme que vá chamar muita atenção de um espectador menos familiarizado com Donald Glover e sua variada carreira artística. O filme idealizado e protagonizado por Glover tem roteiro de seu irmão, Stephen, e direção de Hiro Murai (que também é a mente por trás das câmeras da brilhante série “Atlanta” e do videoclipe “This is America”). O que temos em “Guava Island”, porém, é uma pequena pérola que fala sobre a potência da arte como elemento transformador da sociedade.

Acompanhamos um casal principal, Deni Maroon (Glover) e Kofi (Rihanna). Deni é o músico mais popular da ilha fictícia onde vive (a obra é filmada em Cuba, mas a trama se passa na fantasiosa Guava), enquanto sua companheira, Kofi, trabalha em uma confecção. O conflito da trama surge quando Red Cargo (Nonso Anozie), um criminoso que manda na região, ordena a Deni que não toque no festival artístico programado para o fim do dia e vá embora da ilha. Superficialmente, a intenção de Cargo parece ser afastar as pessoas do festival para que elas se mantenham trabalhando – já que Red é dono tanto da confecção quanto da doca, os dois únicos ambientes de trabalho pesado que vemos ao longo da obra –, mas o plano esconde, por trás, um medo de que uma revolução artística desperte o desejo por liberdade na população – afinal, os personagens parecem viver em função de seus trabalhos.

A arte é um elemento ativo em cada segundo da projeção. A introdução, que alia a narração da própria Rihanna com uma belíssima animação que conta a história do casal, evoca tanto a arte do storytelling quanto a pintura. Mesmo quando a história tem seu ponto de partida e é retratada em live-action, porém, Hiro Murai encontra maneiras de brincar com a relação daquela ilha mágica com a arte. Quando uma trilha de percussão acompanha um momento dramático, a montagem alterna entre a cena que representa a história e imagens de músicos executando a trilha, como se a música fosse um elemento vivo que tomasse as rédeas da narrativa naquele momento. Essa presença de expressões artísticas variadas faz com que o olhar do espectador seja sempre colorido como o de Deni, sujeito que vê na expressão artística a única liberdade e valor alcançáveis.

Murai constrói o mundo de Guava de forma que a arte (representada quase sempre por seu principal artista, Deni) é o único elemento que entra em conflito com o sistema capitalista representado criminoso que comanda o local. Essa relação é construída tanto pelas maneiras mais convencionais – a já citada intimidação de Red Cargo –, como também pela relação de Deni com os outros personagens da ilha. Quando o músico é encurralado por três crianças que trabalham para o vilão e tentam assaltá-lo, Deni reage com calma e, por meio da arte (no caso, o convite para os três meninos assistirem ao seu show da primeira fileira) faz com que eles desistam do crime – e removam os disfarces, algo também muito simbólico na cena.

“Guava Island” ainda encontra espaço para brincar com a carreira do próprio Donald Glover, trazendo o protagonista cantando os sucessos de Childish Gambino, seu pseudônimo artístico. O videoclipe de “This is America”, por exemplo, é reconstruído em uma cena na qual Deni envolve seus amigos com a dança e desconstrói o sonho de “liberdade” capitalista americano. Aliás, não é por acaso que essa cena termine justamente com Red Cargo sequestrando Deni para fazer a tal proposta: Dani está, ali, impedindo a continuidade do trabalho – a cena se passa na tal doca que Red possui – para incitar nos trabalhadores alguma manifestação artística, que abandonam seus postos e começam a dançar. Há, durante quase todas as cenas, arte e capitalismo travando um embate, no qual a primeira sempre reage de forma espontânea, apaziguadora e alegre, enquanto o segundo surge sempre de maneira bruta e violenta.

Apontando o legado da arte como única maneira de eternizar o artista e sua ideia, “Guava Island” é uma pequena pérola que, mesmo que imperfeita – a personagem de Rihanna, por exemplo, é bastante subaproveitada, e acaba sendo utilizada apenas como uma muleta de narração –, consegue, assim como Deni, se posicionar com clareza. No ato final, assim como o passarinho engaiolado que o protagonista observa com dó na mansão do “dono” da ilha, toda a população de Guaiva é pintada de azul, cor que acaba funcionando como a representação da liberdade. A ilha de Guava se torna um lugar paradisíaco e lúdico, onde a arte consegue vencer o sistema, mesmo que às custas de muita dor. Sem nunca precisar intelectualizar demais seus temas e tratar tudo de forma sutil e sempre por meio de alguma expressão artística, “Guava Island” é um belo manifesto contra um mundo que transforma tudo em produto – até a própria arte.

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