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Shazam

Shazam

Um olhar infantil para o mito do herói

Matheus Fiore - 3 de abril de 2019

Um dos principais diferenciais entre os universos Marvel e DC Comics sempre foi a abordagem na hora de construir seus heróis. Enquanto, no lado da DC Comics, heróis como Mulher Maravilha e Super-Homem evocam automaticamente uma aura mitológica para suas existências – a primeira é uma guerreira herdeira das deusas gregas, e o segundo é um alienígena com trajetória análoga a de Jesus Cristo –, na Marvel, os grandes sucessos são figuras mais pés no chão. Temos, por exemplo, o Homem-Aranha, um rapaz com os poderes de uma aranha mas que enfrenta os problemas do dia-a-dia: um rapaz do subúrbio que sofre bullying, tem dificuldade de pagar suas contas, é órfão… Outro bom exemplo são os X-Men, que, não é novidade para ninguém, são personagens influenciados pelos movimentos sociais dos anos 60.

No caso de Shazam, adentramos um território mais cinzento nas diferenças primordiais entre Marvel e DC. Billy Batson é um órfão de 14 anos que passou a infância tentando encontrar sua mãe e pulando de família em família até encontrar um lugar que o abrigasse. Temos, então, uma narrativa que adota um olhar terreno desde o começo. Saem os príncipes mitológicos e bilionários mestres do jiu-jitsu de Aquaman e Batman, e entra uma criança com traumas familiares que precisa descobrir qual é seu lugar no mundo – ironicamente, uma busca tanto geográfica quanto metafórica. Isso não significa, porém, que “Shazam” seja um personagem menos típico da DC. Na verdade, o que vemos é uma obra que equilibra tanto a mitologia da DC quanto a irreverência costumeiramente mais vista na concorrência.

A direção de David F. Sandberg (“Quando as Luzes se Apagam”) utiliza muito bem esse olhar “de baixo” para definir o peso dos acontecimentos da trama. Quando Shazam salva as vítimas de um acidente de ônibus, a perspectiva do personagem não é a de um herói que sobrevoa a região e simplesmente ergue o veículo com seus músculos, mas de uma criança que não sabe o que fazer e está estrategicamente posicionada embaixo do automóvel, observando tudo de baixo, com um olhar “civil” que reflete diretamente em suas ideias para solucionar o problema. Essa escolha de recorte também se faz presente em todo o drama do filme: “Shazam” quase nunca vê os conflitos de seu filme com alguma seriedade.

Há um momento, quando o vilão manifesta seus poderes pela primeira vez, que uma verdadeira chacina ocorre, e a escolha de Sandberg é por não mostrar a violência, e sim sugeri-la por trás das paredes, enquanto a câmera procura por um personagem que está do lado de fora do ambiente e grita desesperadamente ao ouvir os sons do confronto. A ideia de Sandberg é clara: até mesmo a violência é tratada sob uma perspectiva infantil, e qualquer coisa mais séria é empurrada para o extra-campo para que a aura infanto-juvenil prevaleça sobre a narrativa – no caso, os gritos histéricos do sujeito que foge desesperado do lugar.

É positiva também a escolha por manter o conflito principal como algo micro, e não macro. Mesmo que o antagonista Thaddeus Silvana (Mark Strong) apresente uma ameaça para toda a humanidade, as preocupações do filme centram-se sempre nas de seu protagonista, que, por ser uma criança de 14 anos, nunca reflete de fato sobre a dimensão da guerra na qual está inserido. As preocupações de Billy e Shazam são as mais simples possíveis: manter sua família segura e salvar a própria vida. Não é, porém, um impulso egoísta de ignorar o perigo ao redor, e sim uma visão de uma criança que sequer tem noção dos próprios poderes e de como pode usá-los para salvar o mundo. Aqui, porém, há de se pontuar um problema: há pouco de Billy em Shazam e vice-versa. O que vemos não é uma transformação de personagem, mas uma verdadeira substituição de personalidade, algo que impede o herói de refletir diretamente os dilemas do menino de 14 anos que está por trás dos músculos.

O interessante é que o roteiro trabalha as questões mundanas de seus personagens não como uma mera ponte para algo grandioso – afinal, trata-se do embate de dois personagens com poderes mágicos mitológicos –, mas como ponto de partida e ponto de chegada. Tanto Shazam quanto Silvana têm seus poderes, de certa forma, oriundos de seus traumas de infância. Se o herói se torna uma alma pura e merecedora de seus poderes por viver em busca do amor materno e pela recuperação da infância arruinada pela ausência dessa figura familiar, o vilão conquista sua força para reparar uma juventude que foi dura pelos maus tratos de seu pai e irmão. O fato de o clímax do filme, então, ser ambientado no parque de diversões onde Billy se perdeu de sua mãe na infância é um acerto não muito sutil, mas eficiente para fazer da conclusão da jornada um acerto de contas com o passado, bem como o local em ruínas ao fim da luta é uma metáfora para a infância destruída.

Vez ou outra, “Shazam” parece um filme um tanto quanto truncado. Alguns conceitos visuais se repetem à exaustão. Imagens de herói e vilão se encarando, por exemplo, aparecem retroativamente, e a sensação de que Billy finalmente está se posicionando no mundo cede lugar a uma repetição que banaliza a força desse enfrentamento. Mesmo assim, é um acerto o fato de o filme não abraçar uma veia mais séria nem mesmo nesses embates, já que o próprio Billy parece não ter noção da seriedade da situação na qual se encontra. Outro problema de “Shazam”é a constante sensação de que o roteiro de Henry Gayden e Darren Lemke não tem muito interesse pelo desenvolvimento do núcleo familiar do protagonista. Ao inserir Billy em um lar com seus novos pais e cinco irmãos, havia ali a bola quicando para falar sobre abandono e solidão, algo que até existe imageticamente (os planos que centralizam o protagonista e ressaltam o vazio ao seu redor no primeiro ato do filme), mas que nunca é desenvolvido ao ponto de tornar-se um arco que enriqueça o personagem.

Nessa divisão entre os dilemas humanos dos persongens da Marvel e as mitologias fantásticas da DC Comics, “Shazam” parece encontrar um interessante meio-termo. O filme que apresenta o bem-humorado super-herói consegue partir do mundano e chegar ao mágico, sem que um anule o outro. A preocupação com o universo místico divide espaço com os medos e incertezas inerentes à juventude. Temos, portanto, uma obra que acerta ao manter-se como comédia, por estarmos acompanhando justamente a jornada de um personagem em processo de amadurecimento, que ainda não compreende o peso de suas escolhas e vê o mundo com irreverência. Que bom que finalmente podemos olhar para um herói da DC enxergando nele não um deus, mas uma criança se divertindo e se descobrindo por meio de seus próprios poderes.

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