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Duelo de Titãs (2000)

Duelo de Titãs (2000)

Gustavo Pereira - 30 de janeiro de 2018

“Duelo de Titãs” faz parte de um gênero informal de filmes conhecido como feel-good. Esse cinema “alto astral” existe porque nem sempre a vida é fácil e todos temos uma necessidade inconsciente de ver as coisas dando certo de vez em quando.

Duelo de Titãs Remember the Titans Denzel Washington

Yoast e Boone: se não resolverem suas diferenças, a integração racial na Virgínia não dará certo

O filme pertence a um tempo já quase esquecido de quando a Disney não era dona de metade das franquias mais lucrativas de Hollywood e precisava contar histórias originais para sobreviver (no mesmo 2000, Bruce Willis estrelava “Duas Vidas“). Destaca-se pelo peso histórico do evento narrado, pela estrutura que amarra absolutamente todas as pontas soltas e pela presença de Denzel Washington, àquele momento no auge de sua carreira (ganharia o Oscar em 2002 por “Dia de Treinamento“).

A figura do treinador Herman Boone, primeiro treinador de futebol americano negro da T. C. Williams High School após a escola adotar a política de integração racial em 1971, tinha potencial para a pieguice. Washington consegue dar profundidade ao seu personagem, que não era apenas uma figura central no processo de aceitação dos alunos negros pela comunidade escolar, como também alvo do racismo de pais, professores e alunos da escola. Sua cobrança pela perfeição dentro do campo é uma metáfora sobre como os negros devem se portar numa sociedade racista para serem aceitos.

Ao mesmo tempo, ele sabe que a diretoria da escola aguarda por um deslize dos Titãs (o filme pega emprestado o nome do time da escola) para demiti-lo. Boone não é um profeta chegando do alto de uma montanha com tábuas de mandamentos, mas um igual. E esse nivelamento é fundamental para tornar o sentimento de união em torno do time em algo crível. E, feita a ressalva de que o roteiro não chega perto de ser desafiador, este cumpre sua função de forma correta.

Duelo de Titãs Remember the Titans Denzel Washington

O ponto alto de “Duelo de Titãs” é, certamente, a concentração dos atletas na pré-temporada que conclui o primeiro ato do filme. As associações entre esporte e união são óbvias, mas funcionam: os jovens, inicialmente divididos entre brancos e negros, são reorganizados em “ataque” e “defesa”, sendo obrigados a conviver com companheiros da outra cor, conhecê-los e vê-los como indivíduos. Julius (Wood Harris) e Gerry (Ryan Hurst) ganham destaque por representarem na sua relação o caminho apontado pelo filme como o ideal para uma sociedade etnicamente integrada: passada a barreira da desconfiança e do preconceito (Julius vê os brancos da mesma forma que é visto por eles, com desprezo), o respeito mútuo pelo comprometimento com o time cria uma forte amizade entre eles. O interesse em comum, o sucesso na temporada de futebol americano, faz a cor da pele dos jogadores se tornar irrelevante.

Esse processo de desconstrução do preconceito se torna importante quando a concentração termina e o time precisa lidar não só com a comunidade local, mas com os preconceitos das próprias famílias. Definitivamente, “Duelo de Titãs” coloca o futebol americano como a única chance do processo de integração ser aceito (algo que, uma década depois, Clint Eastwood abordaria de forma bem mais elaborada em “Invictus“).

Duelo de Titãs Remember the Titans Denzel Washington

Julius e Guerry: negros e brancos unidos em torno de um objetivo comum

A forma como Boaz Yakin filma as partidas, sem um único plano aberto que mostre o campo inteiro, deixa claro que o jogo, por mais importante que seja para a história, é um pano de fundo para a questão racial. Talvez seja o filme sobre um esporte que mais o exiba sem ensinar nada sobre ele. A trilha de Trevor Rabin (da banda de rock progressivo Yes), emulando John Williams a cada compasso, usa de tons marciais similares aos de uma banda escolar, com notas longas que imprimem uma sensação épica a cada jogada ou frase de efeito. Não resta muita margem para questionarmos se os Titãs vencerão seus jogos, a questão é qual preconceito precisarão derrubar para isso.

Desta forma, como que pegando na mão do espectador e lhe dando todas as chances para que entenda a mensagem, inúmeras vezes vemos jogadores brancos cedendo lugar a negros e vice-versa pelo bem do coletivo. Sempre que algo de ruim acontece, é a máxima “eu não sou mais importante do que o meu time” que salva o dia. Mas deve ser ressaltado que, diferente de filmes até mais conceituados como “Estrelas além do tempo“, não é um branco que acaba com o racismo num gesto altruísta. “Duelo de Titãs” é um dos raros casos em que a parceria entre diferentes etnias é, de fato, uma parceria. Julius e Gerry, assim como os treinadores Boone e Yoast (Will Patton), trocam ensinamentos entre si e todos crescem enquanto pessoas exatamente por essas trocas.

Duelo de Titãs Remember the Titans Denzel Washington

E é a filha de Yoast, Sheryl (Hayden Panettiere), a narradora do filme, que acaba encarnando seu espírito: a criança pura que começa a história preocupada com vitórias e termina se importando também em como vencer. É melhor perder limpo do que ganhar sujo. E, na hora em que colocam o uniforme, as cores dos atletas pouco importam. É bem verdade que o racismo não acaba com interceptações e touchdowns. Mas o esporte pode sim ser uma porta de entrada para que olhemos o outro como nosso semelhante. São as paixões em comum que criam a noção de comunidade. Se olhássemos mais para o que temos em comum e menos para o que temos de diferente, talvez, um dia, pudéssemos viver em um mundo mais amigável.

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