Marighella

Marighella

Uma face de um homem leal

Igor Nolasco - 3 de novembro de 2021

Convenhamos: a estreia oficial de “Marighella” no Brasil, em novembro de 2021, o dispõe fora do espaço-tempo para o qual ele parece ter sido inicialmente planejado. Não é segredo pra ninguém que o filme circulou pelo circuito internacional de festivais no ano de 2019 (inclusive arrebanhando prêmios). Enquanto o público brasileiro assistia de fora ao sucesso que o primeiro longa de Wagner Moura como diretor vinha fazendo no exterior, a perspectiva de um lançamento nacional ainda era distante – e foi sucessivamente adiada diversas vezes, inclusive antes da pandemia de COVID-19 fechar as salas de cinema durante quase todo o ano de 2020. Com direito a acusações de censura por parte da Agência Nacional do Cinema feitas pelo cineasta, a obra chega às salas de exibição brasileiras de modo extremamente tardio. Perdeu-se o timing, e esse atraso interfere até mesmo na percepção espectatorial em relação ao filme.

Caso consideremos o ano de produção do longa e mesmo o período para o qual seu lançamento estava inicialmente previsto, é possível rotulá-lo (de forma rudimentar, é verdade) enquanto parte de uma safra de produções que visavam, de forma mais ou menos alegórica, discutir questões relativas ao presente sociopolítico do Brasil. “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, certamente pode ser citado como um dos expoentes mais bem-sucedidos dessa leva do que muitos, desde aproximadamente 2015 ou 2016, vem intitulando de “filmes necessários” – por questões extrafílmicas que, por vezes, são colocadas em primeiro plano em detrimento dos atributos fílmicos propriamente ditos (ainda que ambos não sejam mutuamente excludentes).

O problema é que o zeitgeist do “filme necessário”, a essa altura, já parece exaurido. Talvez o baque súbito da pandemia tenha contribuído para a interrupção desse ciclo – mesmo que a produção audiovisual brasileira, aos trancos e barrancos, não tenha parado; à duras penas ela segue marcando presença nos festivais de cinema e, quando possível, nas salas do parque exibidor. E nisso, “Marighella”, mesmo recheado de boas intenções, parece estar gritando-as para o vazio, para um público que já consegue telegrafar tudo o que a produção tem a dizer, e está saturada de ouvir esse tipo de discurso disposto em tela de forma tão simplista. Nesse sentido, “Marighella” peca: o texto por vezes é tão direto que tira o espectador do filme, ao parecer ter dificuldades de adequar as pautas que considera urgentes ao molde da narrativa. Frases ditas pelos personagens soam mal e não cabem na história, ou cabem de forma desajeitada. Ainda que quem esteja do outro lado da tela, caso encontre-se minimamente ciente do que o filme está tentando fazer, possa relevar esse tipo de tropeço, chega uma hora em que as boas intenções de Moura tornam-se hiperdependentes da boa vontade do público.

“Boas intenções” talvez sejam as palavras-chave para descrever Wagner Moura enquanto o cineasta responsável por “Marighella”: o artista baiano é claramente bem-intencionado; bancou o projeto dando a cara à tapa, e comprou a briga suscitada pela escalação de Seu Jorge, ator retinto, para o papel de Carlos Marighella, o que desde o momento do anúncio causou numerosos ciclos de debate na imprensa e nas redes acerca da negritude do personagem histórico retratado. Seu filme utiliza o período histórico da ditadura militar sessentista para pôr em pratos limpos questões que visam claramente um diálogo franco com o presente extra-diegético. Quando Bruno Gagliasso aparece em tela vivendo o policial Lúcio, perseguidor implacável de Marighella que eventualmente será responsável por sua morte, sua caracterização um tanto quanto cartunesca visa fazer uma intertextualidade entre o longa e a realidade presente, na qual figuras públicas que replicam ou admiram tais comportamentos permeiam o atual imaginário brasileiro. O problema é que, com essa tentativa bem-intencionada de ser um filme “atual”, “Marighella” abre mão de qualquer sutileza possível. E isso não se limita apenas ao personagem de Gagliasso, ainda que ele canalize essa questão.

O próprio Carlos Marighella acaba sendo objeto dessa unidimensionalização narrativa proposta pelo longa para que a história se encaixe nesse contexto de diálogo com o Brasil dos anos 2010. Se o longa apropriadamente fecha com “Mil faces de um homem leal”, música dos Racionais MCs sobre Marighella, em seus créditos finais, o que se vê ao longo da projeção é uma única face desse homem leal. Carlos Marighella é um personagem histórico riquíssimo: fruto da união entre um italiano e uma negra hauçá, estudante-prodígio na Bahia, poeta, professor, figura pública desde os anos do getulismo, deputado pelo Partido Comunista do Brasil, escritor de uma série de livros, dissidente do Partidão ao se enveredar pela luta armada. “O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo”, extensa biografia escrita pelo jornalista Mário Magalhães que serviu como base para o roteiro da produção cinematográfica, dá conta dessas “mil faces” com requintes de detalhe. De certa forma, é admirável que o longa tenha mirado em um recorte temporal específico (a vida de Marighella especificamente no que é relativo à ditadura militar sessentista) do que em uma tentativa canhestra, vista tantas vezes em obras biográficas no cinema brasileiro e internacional, de encapsular a vida inteira do personagem-título de forma linear e irremediavelmente apressada. No entanto, Marighella, o homem, é drenado quase que completamente de sua humanidade quando o filme escolhe retratá-lo majoritariamente enquanto uma figura de liderança – a supracitada “uma face” que Moura escolhe para se aprofundar. As “outras faces” são, se não completamente apagadas, reduzidas a frases nas cartelas de abertura ou a breves lampejos em meio ao todo.

Momentos de respiro estão presentes desde o começo, é verdade, na tentativa de integrar o “Marighella-homem” ao “Marighella-líder”: a relação com o filho Carlinhos ou mesmo com a companheira Clara, vivida por Adriana Esteves, atriz de destaque no atual audiovisual brasileiro que aqui possui pouquíssimo espaço para trabalhar: além da magra minutagem em tela da qual dispõe, sua função narrativa é muito mais servir como uma consciência para Marighella do que existir como uma personagem autônoma. Talvez isso se encaixe em uma espécie de esquemática de personagens alegóricos visada pelo cineasta: Clara, o policial Lúcio, o “Marighella-líder”. Alguns outros, ainda que colocados em tela em expediente similar, o são com mais suavidade, e portanto protagonizam ou são coadjuvantes de momentos mais orgânicos: o jornalista vivido por Herson Capri, que ajuda a ALN mesmo que parcialmente rompido com Marighella; o “Branco”, interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos, companheiro de luta mais próximo de Marighella (o “Preto”) durante quase todo o longa; os integrantes mais jovens da ALN.

Entre estes jovens guerrilheiros que veem Marighella como essa figura de liderança, mesmo momentos de ternura chegam a ser possíveis, como na relação entre o personagem Humberto e um companheiro que ele descobre ser pai de família, com três filhos para criar, dividido entre o dever parental e a luta armada. O sacrifício de Humberto para salvá-lo, inclusive, é um dos pontos altos do filme, e representa o que Wagner Moura faz de melhor ao longo de “Marighella”: um bom trabalho de ritmo não apenas nas sequências de ação, mas, em geral, nos momentos de maior tensão. A tomada de abertura, que mostra a ALN invadido um trem que carrega armas no objetivo de subtraí-las, rodada em plano-sequência ao som de “Banditismo por questão de classe”, de Chico Science e Nação Zumbi, marca o começo do filme com um capricho digno de elogio que por vezes retornará posteriormente. A sequência na qual Carlinhos, após anos sem ver o pai, precisa alertá-lo, à distância, de que um encontro entre os dois em local público precisa ser cancelado às pressas graças à presença de agentes escusos no ambiente, ou a dolorosa e gráfica tortura comandada pelo policial Lúcio, são exemplos primorosos dessa boa mão de Wagner Moura em sua estreia como diretor – lembremos, em um projeto nada fácil: longa-metragem biográfico com quase duas horas e quarenta minutos de duração, calcado sempre em um diálogo entre passado e presente.

Por vezes esses arroubos de qualidade diretorial, no entanto, são ofuscados anti-climaticamente pelas perenes derrapadas que o texto dá em suas boas-intenções. Não ajuda que, por vezes, o fraco texto seja entoado pelos atores com a intensidade característica do “método preparatório Fátima Toledo”, talvez maior herança assumida por Wagner Moura de sua antiga parceria com o cineasta José Padilha – mas que funciona de modo mais natural nos filmes de “Tropa de Elite” do que em “Marighella”. Isso também marca, de forma característica, a presença da produtora O2, de Fernando Meirelles, cujo maior trabalho aqui, além de imprimir no filme o seu padrão estético, é aproveitar espaços do Rio e de São Paulo que conservam arquitetura pré-século XXI e maquiá-los para mimetizar os anos 1960, o que por vezes dá certo, por vezes não (o Cine Íris, onde Marighella entra, logo ao início, para se esconder em uma sessão de um filme do Mazzaropi – que está sendo exibido numa projeção digital que nem barulho faz – representa bem os momentos em que tal esforço não funciona).

Mesmo quando o assunto não é diálogo ou caracterização, o filme causa estranheza ao colocar determinadas questões de modo mais ou menos subliminar. A própria morte do guerrilheiro Humberto citada anteriormente, ainda que culminação de uma das melhores sequências do filme, é fruto do subtexto de que o sacrifício e a morte do personagem teriam sido consequências de uma demasiada radicalidade. A maneira com a qual a produção lida com o posicionamento político de seus personagens e com toda a questão da luta armada é no mínimo questionável. O fenômeno da luta armada durante a ditadura militar brasileira é, de fato, complexo, e um olhar retroativo está destinado a ser inerentemente anacrônico e perigando abordagens que se aproximam de uma espécie de romantização inocente (vide: “O que é isso, companheiro?”, de Bruno Barreto) ou um retrato grosseiramente hostil e por vezes calculadamente difamatório (vide toda a anti-propaganda feita pela direita brasileira em relação ao longa; nas redes, vê-se mesmo uma falsa simetria que tenta comparar Marighella ao vomitativo torturador Carlos Alberto Ustra).

Em “Marighella”, fica claro o objetivo de colocar a ALN como os “patriotas reais” em oposição aos “falsos patriotas” do governo então vigente no país. Quando, ao ser perguntado por um jornalista francês se identifica-se mais com o marxismo-leninismo, o maoísmo ou outras correntes do pensamento de esquerda, Marighella, com um sorriso de canto de boca, responde ser simplesmente “brasileiro”. A já famosa “cena pós-créditos” mostra os integrantes da ALN juntos, em círculo, entoando aos prantos o hino nacional. Ora, se o próprio Marighella do filme, ao romper com o PCB, diz que “não é o partido que me faz ser um comunista”, não seria mais verossímil que a Internacional estivesse na boca da ALN em detrimento ao hino brasileiro, num momento histórico em que o patriotismo havia sido sequestrado pela ditadura?

A mensagem que o filme parece querer passar é clara: a de que é preciso resgatar o orgulho de ser brasileiro daqueles que o usurpam na intenção de utilizar um falso patriotismo para mascarar sua verdadeira face. Novamente, aqui ouve-se, durante a obra, a voz de Wagner Moura querendo falar com o espectador no presente. Nisso, “Marighella”, ainda que munido de uma mensagem potencialmente inspiradora, esbarra na inexorável realidade do fato histórico: mesmo com ações bem-sucedidas (como a transmissão de rádio, momento célebre do filme), a ALN não venceu. A luta armada brasileira – aqui retratada sob esse verniz patriótico – não derrubou a ditadura. Marighella foi brutalmente assassinado e os detalhes sobre sua morte falsificados pelo relatório policial (aqui posto em tela numa sequência na qual a voz do próprio Wagner Moura recita, para o policial Lúcio, a “versão oficial” dos fatos).

O longa felizmente não glamouriza o martírio, mas tenta encontrar nele uma fonte de inspiração. E Marighella – o da realidade e o do filme – pode ser, de fato, visto como uma figura inspiradora. Por ter trazido esse personagem histórico de volta ao debate público de forma tão maciça ao longo dos últimos anos, talvez a produção dirigida por Wagner Moura já tenha encontrado sua função. Enquanto filme, está polvilhada de bons momentos espalhados ao longo de uma minutagem robusta e que, apesar de sê-la, mostra não mais do que uma das mil faces do homem leal que intitula o longa e que incendiou o mundo marcando seu espaço na história do Brasil.

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