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O seu cinema não importa: “Showgirls”

O seu cinema não importa: “Showgirls”

O que torna a obra maldita de Paul Verhoeven um filme essencial sobre o cinema americano

João Pedro Faro - 27 de janeiro de 2019

Ainda é uma ideia viva nos ambientes do cinema um certo paradoxo que parece meio ignorado: como podem dizer que um filme é transgressor, subversivo e chocante, se esse mesmo filme é aplaudido em salas de cinemas colossais em festivais europeus, lotadas por gente bem vestida e bem entendida? Como um filme vencedor de Oscar, de Palma de Ouro, de premiação qualquer da instituição careta que for, pode ser celebrado como algo essencialmente verdadeiro? Não parece existir muita verdade em nenhum desses eventos ou em nenhuma promoção cultural que promete ser “do momento”, simplesmente porque a total ou majoritária aceitação de uma obra já não deve vir carregada de tanta verdade assim. Mesmo com tudo isso em mente, são sempre esses os filmes rotulados de forma similar como um “cinema importante”. Eles abrangem bem os assuntos “do momento” e prometem ser definidores das temáticas que circulam nesses meios culturais. No fim das contas, prometem ser uma fala digerível que manterá esses espectadores atualizados no hype cultural urgente sem maiores preocupações. Esse é o cinema que importa.

Mas existe um lado oposto: o cinema que não importa – ou que pelo menos parecia não importar. Como exemplo máximo há um holandês carismático, já perto de seus 60 anos e trilhando uma sequência de filmes americanos populares, rodar sua obra-prima na metade da década de 90. É a história de uma jovem sem passado que se aventura pelo mundo das dançarinas eróticas de Las Vegas. Chama-se “Showgirls”, um filme ridicularizado, colocado como cinema da mais baixa categoria, cheio de vulgaridades e excessos injustificáveis. Se esse tal cinema colocado como desimportante, baixo, é visto assim por um mesmo conjunto de espectadores que viria, algum tempo depois, a considerar como “filme do ano”, algo tão caquético, brega e violentamente falso como “Beleza Americana” (1999), há de se suspeitar que a natureza de “Showgirls apresente verdades demais para esse público.

Como surge toda essa verdade? Ela claramente não é um dom de qualquer autor, de qualquer Sam Mendes que a gente esbarra em faculdades de cinema mundo afora. Essa verdade surge de uma construção excepcional, em uma carreira libertária e extravagante como a do sorridente holandês Paul Verhoeven. Vindo de um cinema de fantasia europeu tão próprio e extravagante (vide o excelente “O Quarto Homem”, de 1983), Verhoeven embarcou numa leva de sucessos em sua carreira americana. Filmes como “Conquista Sangrenta (1985), “Vingador do Futuro (1990) e “Instinto Selvagem (1992) não deixam de ser experimentos brutais dentro da indústria, mas, como são, em termos de gênero, obras mais localizadas (thriller policial, ficção científica, aventura medieval, respectivamente) parece que a ultrarrealidade Verhoveniana é aceita.

Por mais que clássicos como “Robocop (1987) pertençam à sua linha de compromisso em filmar o cotidiano americano como ele verdadeiramente é, com o seu excesso e seu histrionismo indiscutivelmente certeiros, ainda estamos vendo um filme sobre um robô policial. Parece mais distante, podemos olhar os empresários psicopatas e o sistema policial monstruoso como certas caricaturas. Verdadeiro, porém mais digerível. Quando “Showgirls se propõe como drama, como um cinema para ser visto sem maiores “enganações” ficcionais, tudo parece mais difícil de engolir.

Logo no início, “Showgirls já estabelece todo o seu tom. Nomi (a brilhante Elizabeth Berkley), revoltada por ter sofrido um golpe, faz um escândalo enquanto está completamente perdida na paisagem artificialmente iluminada de Las Vegas. Parece que, não importa o quanto alguém tente, a dor constante de viver numa realidade onde a única beleza possível vem do que é falso, do que é fabricado, é insuportável. Nas cenas seguintes, pouco a pouco, o que acompanhamos é a jornada de Nomi até a elevação espiritual que alcança por permitir dominar-se pelo prazer da fabricação. Nomi passa por cima de toda a escória que tenta subjuga-la a qualquer escalão baixo (sexualmente, financeiramente e profissionalmente falando). É quase uma jornada do herói invertida: ao invés do ideal moralista de purificação, Nomi aproveita a podridão da indústria como um altar para poder estar acima de tudo que parecia estar acima dela.

Toda a interação de Nomi com a rival Crystal (Gina Gehrson) é fascinante pela troca possibilitada entre quem já esteve no topo e quem ainda está por vir ao topo. Quando as duas estão em cena (especialmente naquele almoço e na cena final do hospital) vemos a interação mais genuína possível entre corpos que experimentaram sua capacidade máxima dentro de um império que parecia tão impenetrável, tão inalcançável. Tudo isso está em tela a cada momento: as atuações que gritam, que brutalizam seu método; as cores das iluminações, das maquiagens e dos outdoors que nunca parecem mostrar nada realmente humano… A verdade está justamente nos extremos que o Verhoeven busca. O que existe de tão caótico e transgressor em seu cinema é justamente sua falta de preocupação com justificativas mais elegantes ou segundas páginas para tratar qualquer temática. Não existe uma roupagem, existe apenas uma frontalidade agressiva de tão honesta.

Por mais que falar do sonho americano seja uma constante na modernidade, parece que toda ideia em torno desse conceito cansado não vai além de moralizações e dicotomias simplórias, nenhum autor parece muito disposto a tentar entender como realmente esse tal sonho acontece. Não é o caso de “Showgirls. Falando especificamente de um momento, talvez o grande do filme: Nomi sobe ao palco como a estrela do show pela primeira vez. Sabemos que ela só está ali por uma tentativa de homicídio, sabemos que por trás daquele espetáculo estão as mentes mais doentias do showbussiness e quem está lucrando são os mais repugnantes milionários de Las Vegas. Mas nada disso importa, pois estamos vivendo o sonho americano junto com Nomi. Naquele instante, ela chegou ao topo. As luzes explodem num dourado e Verhoeven põe o som estourando e ilumina um close de Elizabeth Berkley que torna todo o espetáculo algo arrepiante. Está aí, tudo entregue ao excesso, o prazer do sonho americano é real. Um orgasmo sensorial na forma fílmica. O mito se torna cinema, que diretamente se torna verdade. É engrandecedor de um jeito que poucas cenas são. Uma potência ainda reforçada quando Nomi vai atrás do estuprador de sua amiga para enche-lo de porrada. Qual outra protagonista atingiu tanto poder dentro do cinema ao ponto de conseguir esmagar a cabeça da indústria quando bem entender?

A reavaliação tardia de “Showgirls surge de dois espaços não muito competentes. O primeiro, de uma apreciação irônica do filme, causada principalmente pela internet e que não diz muita coisa sobre qualquer assunto. A segunda pelos caminhos mais recentes do cinema do Verhoeven. Ele precisou de seu momento pessoal de gente “bem vestida” e “bem entendida” em Cannes, tendo Isabelle Huppert como estrela, para que voltassem a repensar sua carreira da metade dos anos 90 pra cá. Ainda que “Elle” (2016) seja excelente, é curioso pensar nessa inversão que aconteceu para que as coisas fossem mais esclarecidas sobre o diretor. Mas não dá para reclamar, a marginalização inicial e a recepção baixíssima de “Showgirls são inerentes à própria obra, é parte do que a torna tão impecável, justamente porque consegue provar todos os seus pontos.

O que Verhoeven atinge em “Showgirls é exatamente um cinema que, de tão verdadeiro, tão essencial, não se restringe a nada. Não existe a busca por prestígio da Academia ou por certas amarras que um cinema de assuntos “sérios” acha que precisa ter; um caso raro da época (e ainda dos dias de hoje, afinal) que nunca renega o cinema como linguagem. Pelo contrário: encontra no meio uma potencialização de sua temática, que pega conceitos tão banalizados e exaustados pelo motim artístico moderno como “a desilusão do sonho americano” e a “perversidade da indústria”, tornando-os parte de uma experiência gigantesca, renovadora, que preenche um scope inacreditavelmente dominado por mais de duas horas. Não é apenas o último épico que o cinema teve, como um de seus melhores, pois pouquíssimos outros permitiram-se tamanhos prazeres em tela. No fim das contas, é isso que importa.

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