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The Fire Within: Requiem for Katia and Maurice Krafft

The Fire Within: Requiem for Katia and Maurice Krafft

Sobre encontrar vida além da morte e o paraíso além do inferno

Matheus Fiore - 19 de abril de 2024

Gosto de pensar em The Fire Within: A Requiem for Katia and Maurice Krafft comparando a O Homem-Urso. Há semelhanças entre os dois filmes de Werner Herzog, mas o que torna ambos fantásticos é o que os diferencia. Enquanto em Homem-Urso Timothy Treadwell sentia fascínio pelos animais ao ponto de não compreender a linha que separa amor e respeito pela brutalidade da natureza – o que o levou a uma morte terrível –, Katia e Maurice Krafft aprendem bem cedo esse limite em The Fire Within. Na verdade, a grandiosidade do filme emerge justamente a partir do momento em que eles descobrem esse limite. O documentário lançado em 2022 mostra dois vulcanólogos apaixonados por erupções. O casal filmava suas aventuras pelos solos mais hostis que um ser humano já pisou. Em dado momento do filme, há uma transformação nas filmagens dos Krafft. A dupla deixa de se fascinar apenas com lava, chamas e rochas, e passa a direcionar suas lentes para a vida que cerca a morte. Sobreviventes, vida animal, natureza e como tudo isso é afetado pelos vulcões. Katia e Maurice filmam a vida que persiste diante do apocalipse.

É inevitável encontrar o diálogo que Herzog propõe não só com seu documentário de 2005, mas também com Histoire(s) du Cinèma – e claro, com todo o cinema e sua relação com fantasia e realismo, análoga ao processo que os Krafft passam ao trocar o vulcão pelas pessoas. No filme, Godard menciona o poema a Flor de Coleridge: “E se um homem atravessasse o paraíso em seus sonhos e tivesse como prova de sua passagem uma flor, e ao acordar, encontrasse essa flor em suas mãos. O que dizer, então?” Godard responde: “Eu fui esse homem”. Quando perguntado sobre o medo de morrer em suas aventuras, Maurice diz: “Eu vi tantas erupções em 23 anos que, mesmo se eu morrer amanhã, eu não ligo”. Katia e Maurice também foram esse homem. Por essa fala se diferenciam Katia e Maurice de Timothy. O casal, que morreu engolido por uma erupção no Japão em 1991, conhecia bem os limites da natureza, e já inclusive trabalhava para registrar o que acontece com a vida nesse limite. Mesmo assim, persistiu. Por paixão, mas sem inocência ou ignorância. Com consciência do destino que poderia ser encontrado a qualquer momento. É como se toda a história de Katia e Maurice existisse para encontrar, pelos registros, as mãos de Herzog e ele pudesse fazer, então, The Fire Within. A dupla nasceu para filmar o infilmável da mesma forma que o cineasta para contar o inenarrável. 

Definam como quiserem as imagens que os Krafft registraram ao longo de 23 anos como vulcanólogos. Alienígenas,, fantasiosas, sobrenaturais… O fato é que Katia e Maurice chegaram ao paraíso, e a sua flor é o registro; é a eternidade dos momentos que só uma câmera pode te trazer. É a oportunidade de deixar uma janela aberta para que o espectador tenha, por meros 80 minutos, um vislumbre do que há de mais incrível na natureza, no mundo, no universo. O registro daquilo que, de longe, parece o inferno, mas de perto e para quem teve coragem de desbravar, é o paraíso. E Herzog, como o grande artista que é, nos leva a esse paraíso contando uma aventura de amor e humanidade, musicada, montada e narrada como uma tragédia digna do teatro grego – com direito ao próprio Herzog sendo Deus Ex-Machina para versar sobre o paradeiro final dos Krafft, que encontra no cantinho da imagem.

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