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Um Lugar Silencioso

Um Lugar Silencioso

Matheus Fiore - 3 de abril de 2018

“Um Lugar Silencioso” é construído ao redor de uma ideia interessante: um mundo apocalíptico dominado por criaturas que reagem agressivamente a qualquer som e buscam exterminar os humanos. Os humanos remanescentes, portanto, devem viver no silêncio absoluto, evitando ao máximo emitir qualquer som que não seja seus cautelosos passos ou respirações. A partir desse conceito, a obra de John Krasinski (que, aqui, além de dirigir e co-escrever, também protagoniza) tinha dois caminhos mais lógicos a seguir: ser um filme alegórico, trabalhando questões sociopolíticas (como fez o recente Ao Cair da Noite) ou focar apenas nas experiências comuns do gênero, que é o caminho escolhido por pelo menos dois terços da projecao, explorando o som como elemento narrativo para imergir o espectador no terror, como “O Homem Nas Trevas”.

A obra é dividida em duas partes. A primeira dedica-se exclusivamente a apresentar as regras daquele universo, mostrando desde o que os habitantes fazem para sobreviver, até como buscam suprimentos e se protegem das criaturas. Mesmo que seja interessante haver a construção de toda a tensão sem diálogos (apenas um terço do filme é falado), há um claro receio de que o espectador não vá absorver todas as informações necessárias, o que implica um trabalho de superexposição. Há, por exemplo, um quadro branco que traz as características dos monstros e as instruções para evitá-los. O quadro é mostrado primeiramente em um plano aberto, mas logo depois ganha um plano-detalhe, e, ao longo do filme, ainda é revisitado outras duas vezes. A repetição de algo que é bem estabelecido já na primeira tentativa faz de “Um Lugar Silencioso” um filme que mastiga demais, que pouco confia na inteligência e percepção do público. Em outros momentos, até há alguma sutileza, como o plano inicial do filme, que traz um semáforo destruído caído no chão, imediatamente situando o espectador em um mundo onde qualquer ordem civilizatória foi perdida diante do cenário de domínio dos monstros.

Com a ambientação pronta, a segunda parte dedica-se exclusivamente ao terror. Infelizmente, a obra passa a basear-se numa estrutura assustadoramente repetitiva e em truques muito comuns para imprimir tensão. Os personagens parecem estar presos a um ciclo de acontecimentos,em que sempre haverá alguém que acidentalmente atraiu a atenção dos monstros, e, quando a criatura estiver prestes a matar um dos protagonistas, um familiar fará barulho em outro canto da região. Com isso, o monstro sempre trocará de alvo, cercando uma pessoa até que passe a mirar outra até que passe a mirar outra pessoa. A repetição dessa sequência ocorre com tanta frequência que, em certo ponto do filme, o espectador se pegará apenas aguardando qual será o elemento que deslocará o perigo para outra parte do lugar.

O mais triste é constatar que, por trás do experimento de gênero, havia um interessante cenário para debater o peso do silêncio para a criação de tabus. Afinal, o silêncio não existe apenas pelo receio de um ataque, mas também pela incapacidade dos personagens de dialogarem para resolverem suas pendências emocionais.

Visualmente o filme tem ideias que contribuem positivamente para a criação da atmosfera. A sombra, por exemplo, é elemento fundamental para criar tensão no espectador, já que há, nos momentos de maior perigo da trama, planos que trazem os rostos dos personagens com fundos totalmente escurecidos. Essa escolha não só simboliza o isolamento e a exposição que os personagens vivem naqueles momentos, como também magnetiza a atenção do espectador pela sensação de que o espaço vazio do plano pode ser ocupado por um dos monstros a qualquer momento.

Há um trabalho interessante com as relações familiares. O olhar cansado e fragilizado de Lee (John Krasinski) e suas conversas com a esposa, Evelyn (Emily Blunt) não só criam um elo forte entre o casal, como estabelecem uma sensação de dever e responsabilidade que guiarão todas as escolhas dos protagonistas, que devem agir sempre a fim de proteger as crianças. A relação de Lee com sua filha, Regan, também é um ponto curioso: a menina sente-se culpada por um evento do passado, enquanto seu pai, por medo de colocá-la em risco por sua deficiência auditiva, costuma deixá-la fora das missões de busca por suprimentos. O distanciamento entre os personagens é construído por minúcias, havendo cenas bem interessantes, como quando pai e filha conversam por meio de reflexos no espelho, sugerindo que ambos não são diretos e sinceros quanto aos seus sentimentos. Essas questões mais humanas, porém, sempre são apenas um adereço, já que o filme prefere focar sempre no susto e na tensão, não na humanização de seus personagens.

Como resultado da escolha pelo terror, não pelo drama, os momentos de aprofundamento dos personagens são sempre seguidos por cenas de tensão que trazem apenas o susto pelo susto. Jump scares, por exemplo, não faltam. Aliás, o jump scare é, provavelmente, a pior característica de “Um Lugar Silencioso”, já que eles surgem sempre por meio de uma trilha barulhenta e exagerada, que quebra o tom passivo e contemplativo que é dominante no restante da narrativa, para mergulhar o espectador numa fórmula de susto simplória e vazia. Como resultado, há inúmeros cenários interessantes para analisar as relações entre os personagens, mas nenhum deles é desenvolvido satisfatoriamente, o que ocasiona que os conflitos que imprimem drama sejam subvertidos em exercícios de tensão narrativamente inócuos.

Se, quando o longa quer impressionar, o som é um subterfúgio óbvio para assustar o público de forma simplória, quando se constrói a tensão, esse elemento é um dos pontos fortes. Enfatizando sempre os barulhos originados por pegadas, gestos simples e até a respiração dos personagens, a edição de som é essencial para a imersão. Ao estabelecer que qualquer som pode despertar a atenção dos monstros, “Um Lugar Silencioso” trabalha todos os elementos do ambiente a fim de criar a sensação de que, a qualquer momento, pode ocorrer um novo ataque. Também é interessante como o som é utilizado para criar perspectivas. Quando acompanhamos uma personagem surda, por exemplo, há um zumbido que representa sua surdez e ajuda o espectador a saber quem está guiando a cena.

Com altos e baixos, “Um Lugar Silencioso” é sensorialmente eficiente, mesmo que dramaticamente seja vazio. É válido que o objetivo do filme seja proporcionar apenas uma imersão no gênero, mas, a partir do momento que o clímax aposta nos elos entre os personagens para impactar, um trabalho de dramatização mais apurado se faz necessário. O que foi negligenciado ou tratado como adereço menor por toda a metragem do filme, isto é, o papel do silêncio na incomunicabilidade da família, logo se torna elemento central. Mas isso acaba acontecendo justamente quando já era tarde demais, e “Um Lugar Silencioso” não mais poderia ser “Ao Cair da Noite”, estando preso às escolhas que o levaram a ser “O Homem Nas Trevas”. Diverte, mas levando em conta tudo que o próprio filme apresenta, fica no meio do caminho do que poderia ser.

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