Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Vidas Passadas

Vidas Passadas

O dilema entre os fantasmas do passado e a racionalidade do presente

Philippe Leão - 7 de fevereiro de 2024

Vidas Passadas (Celine Song, 2023) é uma espécie de filme cartilha do melodrama. Isso não é exatamente um elogio, mas uma constatação no que tange aos usos dos meios/técnicas definidoras do gênero. Há uma implicação bastante frontal das características do melodrama para promover uma conexão frontal com os personagens representados. Somado a isso, se o gênero tem por particularidade as estruturas dialéticas que põe em oposição conflitos de ordem moral, Vidas Passadas nos apresenta o já conhecido dilema da moça entre dois homens. Viver o amor passional e permitir com que o desejo sobreponha a razão ou controlar a potência da vontade? Razão ou emoção? O dilema é só uma desculpa para nos fazer mergulhar no desejo que, por razões externas, não pode – ou não deveria – ser cumprido. Nos fazer afogar na vontade de ver o outro cumprir aquilo que moralmente não seriamos capazes. Torcer pelo que não faríamos ou pelo que não é aceito. As Pontes de Madison (Clint Eastwood); Interlúdio (Alfred Hitchcock); O Piano (Jane Campion); Titanic (James Cameron; e até Crepúsculo (Catherine Hardwicke) são alguns exemplos que usam dessa mesma estrutura.

Esqueleto montado e, dele, Celine Song cria a impossibilidade do amor romântico através de problemas intimamente contemporâneos: migração (coreana); efemeridade das relações; e distância. Nora (Greta Lee) guarda a nostalgia de um amor infantil com Hae Sung (Teo Yoo), mas migra para os Estados Unidos em razão do trabalho de seus pais – ou seja, a despeito de seu desejo. Aqui, um primeiro embate entre a razão e emoção, provocando a separação. A estrutura visa justamente fortalecer o sentido da perda, construindo uma memória afetiva de fácil aderência. Um estimulo de identificação claro, que nos faz mergulhar nos sentimentos dos personagens como algo que poderia ser sentido em nós.

Em segundo momento, ao acaso – elemento preponderante aos melodramas – Nora e Hae Sung se encontram virtualmente e (re)começam a uma relação, mas encontram na distância a impossibilidade de solidifica-lo. O transcurso de suas vidas, as particularidades locacionais e a materialidade (muito confundida com sonhos) impedem o reencontro. Hae Sung tem uma vida na Coréia, investindo em seus estudos e seu futuro trabalho. Suas escolhas racionais lhe impedem de cumprir seu desejo. Nora Moon migrou para os Estados Unidos e lá edificou seu propósito em seu ofício enquanto escritora. Seu propósito racional, porém, lhe impede de cumprir seu desejo. Nosso desejo.

A vida é fluxo – apesar da contida encenação de Celine Song – e Nora conhece e se casa com Arthur (John Magaro), um homem americano. O reencontro com Hae Sung ganha novos contornos na medida que Nora se vê no dilema que põe em oposição o passado e o presente. O passado guarda a memória, as origens culturais, o lugar de onde veio e sua identidade. O presente a razão, a solidez do casamento, o trabalho e a prosperidade. O fantasma do passado assombra Nora.

O reencontro talvez seja a parte mais bela e bem filmada do filme. Com uma câmera sob os ombros de Hae Sung, vemos Nora se aproximando, o tempo parece se prolongar e pouco a pouco reduzindo as distâncias que antes tanto os estrangulava. Ainda assim, a cena assume uma inquietante angústia. A distância da Coréia para os EUA parece paradoxalmente menor que os dois, um frente ao outro. A distância, um fator que matematicamente pode ser calculada e racionalizada, é individualizada nos sentimentos de ambos: próximos e distantes ao mesmo tempo.

Tudo que é sólido se desmancha no ar. Formalmente, Celine Song é eficaz em transpor essa efemeridade em tela ao atribuir uma encenação bastante austera e cheia de respiro (tempo de contemplação), ao passo que também explora o uso constante de travellings quando na representação da relação de Nora e Hae Sung. É verdade que até mesmo os travellings são bastante contidos, mas expandem a noção de uma relação passageira.

Como dito anteriormente, o melodrama visa esse embate entre as escolhas racionais e os sentimentos mais profundos. Ao que parece, porém, o controle excessivo de Celine Song acaba indo na direção de uma espécie de limpeza dos sentimentos mais exacerbados. Em suma, seu estilo, racionalizante demais, acaba por superficializar as emoções, aparando suas arestas. Compreendo as escolhas da diretora no que tange a criar uma unidade mais contida da encenação, funcionando em alguns momentos – em especial no uso dos travellings; e o momento em que o casal se reencontra –, em outros, ao racionalizar, acaba retirando a confusão de sentimentos mais profundos.

Vidas Passadas expõe bem o embate melodramático exposto pela polarização moral caracterizado pela necessidade de escolha de uma mulher entre dois homens: entre o passado e o presente. Entretanto, as escolhas formais implicam numa vitória da razão frente a emoção. Não exatamente pela escolha final da personagem. A história do cinema já nos deu muitos exemplos pelos quais seus personagens não cumprem os seus e os desejos do espectador. É comum ao melodrama essa frustração, que pode até mesmo ser potencializadora. Aqui, a razão vence porque está entranhada no “como” a história é contada – não no “o que” –, não permitindo ao mundo espaço para a confusão.

Topo ▲