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A Freira

A Freira

Matheus Fiore - 5 de setembro de 2018

O maior desafio de esticar um universo cinematográfico como o de Invocação do Mal é fazer com que os filmes não só funcionem de forma independente, mas tenham personalidade. No pior dos casos, temos longas incrivelmente genéricos, como é Annabelle, que reaproveita a estrutura da obra de James Wan e mistura com elementos de Brinquedo AssassinoA Freira até consegue imprimir sua marca, mas por causa de uma enorme preguiça de seus roteiristas e dificuldade de seu diretor de amarrar os elementos em prol da narrativa, não consegue ser um bom filme.

Na trama, um espírito demoníaco chamado Valak – a freira do título – toma conta de um convento, e o vaticano envia o padre Burke (Demián Bichir) e a noviça Irene (Taissa Farmiga) para investigar o caso e analisar se o terreno continua sendo “sagrado”. Ao lado de um camponês local, Frenchie (Jonas Bloquet), que os guia pela floresta romena, a dupla descobre estar diante de uma força sobrenatural que pretende invadir o mundo terreno.

A Freira é um filme de extremos. De um lado, temos um roteiro um tanto quanto preguiçoso, que planta diversas pistas que jamais tornam-se relevantes para o desenvolvimento e a conclusão da história. Há, por exemplo, um mistério que cerca a escolha de Irene como auxiliar do padre Burke, que nunca é explicado. Outro problema do texto são os caminhos que a obra encontra para resolver seus quebra-cabeças.  Com uma primeira metade dedicada à construção atmosférica, pouco sabemos sobre o que realmente acontece no lugar. No meio do segundo ato, a obra insere um núcleo inteiro de personagens que existe única e exclusivamente para explicar para a protagonista, detalhadamente, tudo que aconteceu. E o pior: o núcleo realmente só é usado para tais explicações, já que é abruptamente abandonado assim que não há mais nada para explicar.

No outro extremo, temos um trabalho visual agradável. Toda a identidade artística de A Freira é construída com carinho não só pelos figurinos, que reconstroem com fidelidade a época retratada, como também pelos cenários, que são imersivos e fantasmagóricos. Notamos, por exemplo, como há um capricho do diretor de fotografia belga Maxime Alexandre, que utiliza constantemente a contraluz do fundo do cenário para desenhar as silhuetas dos objetos e seres que estão mais a frente no quatro, como as cruzes de um cemitério ou a presença de uma criatura misteriosa que passeia por trás dos personagens.

Há uma clara influência do clássico Dracula de Bram Stoker – o de Francis Ford Coppola – em A Freira. Os vilões de ambas as obras são anfitriões para os heróis – se no filme de 1992 o Drácula (Gary Oldman) recebe Jonathan Harker (Keanu Reeves) como visitante, no de 2018 a freira acaba por recepcionar o trio protagonista em seu castelo –, o que resulta em um trabalho similar na construção da relação entre os personagens do bem e do mal. O trabalho de Corin Hardy, porém, sequer esboça ter a maturidade e coesão do de Coppola – tanto pela incapacidade de aprofundar a trama quanto pela fragilidade dos personagens.

Em ambos os filmes, há uma tensão constante pelo fato de o público que assiste às obras ter noção de que os anfitriões são criaturas malignas, enquanto os protagonistas demoram para descobrir o que de fato acontece no lugar onde estão. É uma forma eficiente de fazer o espectador se importar com os personagens – mesmo que no caso de A Freira, o elo entre público e personagens seja superficial, já que não há nenhum aprofundamento de personalidade que nos faça criar laços mais estreitos com Irene, Burke e Frenchie.

Outra semelhança é a forma como a ameaça se move pelo ambiente. Assim como em Dracula, a freira demoníaca interage de forma distante com os personagens. Sua presença, por exemplo, é muitas vezes marcada exclusivamente pelas sombras. Vemos apenas a silhueta projetada em uma parede. Uma aparição mais expositiva da figura antagonista é poupada apenas para o ato final – uma escolha acertada para não desgastar a imagem da freira e manter a expectativa do público.

Notamos também o uso da cor vermelha para imprimir personalidade à vilã. Assim como em Drácula, aqui, a freira possuída por Valak causa uma mudança na atmosfera quando está presente. O castelo predominantemente sombrio e acinzentado passa a ser cortado por uma luz vermelha, sinalizando a presença de algo sobrenatural no ambiente. Toda essa construção visual, porém, acaba subaproveitada em um filme que aposta demais nos sustos, criados tanto por uma intensa trilha sonora, que surge jogando o silêncio para longe, quanto pela aparição abrupta da freira e da inserção bruta de elementos na tela.

O desequilíbrio entre construção textual e visual poderia ser amenizado se A Freira, de fato, tivesse interesse por discutir algo por trás de sua trama. A realidade é que o trio protagonista é desinteressante por não só não ter personalidade, como, com exceção de Burke, não ter sequer algum dilema pessoal a ser superado, o que faz com que suas jornadas sejam sem propósito. Enquanto Irene e Burke estão lá por ordens superiores, Frenchie só topa participar da missão porque… O roteiro precisa dele. Como resultado, não há investimento emocional naqueles personagens que parecem estar prontos para morrer sem deixar saudade.

A Freira é, mesmo que bem sucedida em muitas de suas escolhas visuais, uma obra que parece existir apenas para fazer o universo Invocação do Mal continuar lucrando. Para um longa com tantas ideias legais e um visual tão atraente, é pouco. Um filme que tem pouco a dizer e não sabe transformar suas próprias ideias em uma narrativa coesa.

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