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Paulina

Paulina

Matheus Fiore - 27 de junho de 2016

Os primeiros momentos de Paulina já indicam o tom que conduzirá toda a narrativa do filme. A primeira cena mostra Paulina, uma argentina recém formada em direito, contando para seu pai, Fernando (um bem sucedido juiz), que deixará Buenos Aires rumo ao interior do país para ser professora de uma região pobre. Seu pai, reacionário e elitista, prontamente se revolta com a decisão da filha, achando que ela possui alguma obrigação de seguir seu legado.

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É interessante notar como a primeira cena conta muito do relacionamento dos dois com ajuda de enquadramentos e movimentos de câmera. No início, ambos possuem longos monólogos em um plano longo e sem cortes, alternando o foco em cada um deles. Além disso, Fernando está sempre em pé e andando ao redor de Paulina, sentada. Como se o personagem tentasse se impor diante de sua filha.

O curioso é que os personagens, inicialmente, praticamente não são enquadrados juntos, mostrando a distância que há e entre pai e filha. Conforme Paulina argumenta, seu pai lentamente passa a entender e respeitar sua decisão. É aí que ambos passam a ser enquadrados juntos e a bela cena se encerra.

Todo o resto da película segue com o mesmo tom: personagens masculinos tentando dar ordens e dizer o que as mulheres devem fazer. Sem, claro, nunca perguntar o que elas sentem ou querem. Paulina é mais que um filme, é um manifesto feminista contra o intrínseco machismo que ainda acorrenta a humanidade.

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A história tem uma grande virada quando Paulina passa por uma horrível e traumatizante situação e a partir dai foca totalmente nos desdobramentos e motivações deste acontecimento. A fantástica montagem alternada criada por Leandro Aste, Delfina Castagnino e Joana Collier é essencial para entendermos os diferentes pontos de vista da narrativa e para manter um bom ritmo.

Os momentos seguintes são angustiantes e causam ojeriza. A relativização do que acontece com a protagonista é um triste retrato da realidade humana. A situação só piora quando todos ao redor parecem não se importar com suas palavras e sentimentos, só querem, assim como o pai de Paulina, apontar o dedo e dizer o que ela deve ou não fazer. Ninguém nem tenta compreender e respeitar as decisões da personagem.

Outra cena que merece destaque é a do primeiro dia de Paulina como professora. Inicialmente nenhum aluno dá atenção para sua aula, e há alguns planos mostrando a reação dos alunos enquanto a professora fala. Nenhum deles está sequer olhando para ela. O primeiro momento em que alguém demonstra algum interesse é quando a protagonista fala sobre os estudantes terem livre acesso à saída da escola. Após alguns minutos ouvindo Paulina, a turma acaba cativada e passa a se comportar de maneira minimamente respeitosa. Infelizmente este é um dos poucos momentos em que a personagem é ouvida.

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Em um dos melhores momentos do filme, Paulina encontra-se pressionada e inferiorizada diante de um grupo de policiais.

O roteiro é extremamente competente não só em expor o problema da inegavelmente existente cultura machista de objetificação e inferiorização da mulher, mas também em mostrar que, muitas vezes, o sexismo acontece inocente e inconscientemente. O próprio pai de Paulina toma todas as suas atitudes com a melhor das intenções, mas ele simplesmente não entende que algumas decisões não cabem a ele tomar. Aqui as atuações de Dolores Fonzi e Oscar Martínez também são importantíssimas para dar peso emocional e vida aos personagens.

Paulina é um filme duro, expositivo e triste, mas extremamente importante e obrigatório para a sociedade atual. A opção de deixar algumas questões abertas encaixa perfeitamente com a proposta e mostra o quanto a falta de respeito pela protagonista prejudicou sua vida. O grande momento de decisão da história é satisfatório, polêmico e levanta questionamentos pertinentes.

O filme tem uma direção primorosa e que é bem acompanhada pelo excelente roteiro, fotografia e incríveis atuações (principalmente dos protagonistas). Apesar de eficiente, a trilha sonora é discreta, bem diferente da chamativa e ousada montagem alternada.

Tecnicamente impecável e narrativamente poético, o filme já foi premiado em Cannes e tem tudo para ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Aliás, não só merece, como deve. O mundo precisa de mais filmes que cutuquem a ferida do machismo.

 

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