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Máquinas Mortais

Máquinas Mortais

Perdido entre personagens de papelão e alegorias vazias

Matheus Fiore - 9 de janeiro de 2019

“De boas intenções o inferno está cheio” diz o ditado popular que nunca fica velho. “Máquinas Mortais”, primeiro longa-metragem de Christian Rivers com produção de Peter Jackson (diretor da saga “O Senhor dos Anéis”) é mais um exemplo perfeito da atemporalidade do dito. Tentando resgatar o já saturado nicho das aventuras distopicas infantojuvenis – nicho esse que após o sucesso de “Jogos Vorazes”, viu sua popularidade esvaziar-se com “Divergente” e “Maze Runner” –, “Máquinas Mortais”, obra que adapta os livros de Philip Reeve, traz bons conceitos, mas os aplica e desenvolve de forma insatisfatória.

A aventura tem início quando somos apresentados a uma pequena cidade “móvel” que está sendo perseguida por uma megalópole também “móvel”. Essa loucura acontece porque, no mundo de “Máquinas Mortais”, uma grande catástrofe causada por um conflito bélico fez com que os últimos grupos de humanos vivessem em cidades adaptadas, que se locomoverem em maquinários de proporções gigantescas. Grandes cidades, como Londres, agem de forma predatória, caçando os grupos menores para roubar seus recursos, enquanto essas cidades pequenas tentam sobreviver no hostil mundo pós-apocalíptico que foi criado.

“Máquinas Mortais” consegue estabelecer um universo interessante. Visualmente, o mundo steampunk que mistura fantasia e ficção científica convence e, melhor do que isso, consegue criar alguma personalidade para as diferentes cidades que conhecemos ao longo da aventura. Conceitualmente, a relação predatória entre as diferentes “colônias” rende diversas analogias com questões políticas atuais – como a crise dos imigrantes na Europa e o Brexit – e históricas – como a colonização exploratória praticada pelos europeus na América do Sul.

Diversos problemas de recorte e falhas técnicas, porém, colocam tudo a perder. Há, por exemplo, um excesso de clímax. Há, ao longo dos 128 minutos de “Máquinas Mortais”, no mínimo cinco conflitos extremamente apoteóticos que são impulsionados por sequências grandiosas e uma trilha sonora que trata cada minuto como se fosse o último. Há pouco tempo para respirar em “Máquinas Mortais”, o que torna o filme cansativo e, de quebra, faz com que os espaços entre as cenas de ação sejam recheados de diálogos expositivos. O roteiro parece aproveitar cada segundo de descanso para despejar o máximo de informação possível, mesmo que isso faça com que o elenco inteiro pareça, de certa forma, um grupo de palestrantes treinados, tamanha a preocupação com os detalhes de suas descrições.

Essa escolha de dramatizar diversas cenas como se fossem algo de extrema grandeza, aliada a um roteiro que desiste de desenvolver seus personagens antes da metade da projeção, gera um filme que não para de inserir novos elementos – como um zumbi robô que só aparece no meio do segundo ato e protagoniza, inexplicavelmente, o momento mais dramático do filme. Há sempre um núcleo ou personagem novo chegando, mas nenhum deles – a não ser a protagonista vivida por Hera Hilmar – têm algum desenvolvimento mais caprichado.

No meio dessa bagunça, todas as ideias que norteiam a construção do mundo de “Máquinas Mortais” acabam sendo desperdiçadas. As críticas ao capitalismo predatório e ao comportamento explorador das megalópoles em relação às cidades e países menores é descortinado logo nos primeiros minutos, deixando nítido para o público quais simbolismos estão presentes no filme. O problema é que, após criar as analogias, o roteiro não as utiliza para desenvolver ideias. Tudo é simplificado ou reduzido em prol de uma aventura que segue um manual de instruções e pouco se esforça para trazer características próprias. É como se qualquer metáfora ou símbolo estivesse lá apenas como uma desculpa para mais uma aventura infantojuvenil completamente desprovida de personalidade ou lapidação dramática.

Hugo Weaving utiliza sua luneta para enxergar o cachê que o convenceu a entrar nessa roubada.

O mais lamentável de “Máquinas Mortais” é que o interessante mundo steampunk criado com competência pelo design de produção, acaba servindo não como ponte para desenvolver temas interessantes e uma história cativante, mas como uma maquiagem para uma histórica reciclada. “Máquinas Mortais” segue à risca uma estrutura de história já saturada e, pior, o faz de forma tecnicamente falha e tematicamente vazia. O excesso de clímax torna a obra cansativa e a ausência de desenvolvimento de personagens faz com que todos pareçam NPCs de um jogo de videogame. É como se o filme pegasse uma trama já pronta e apenas alterasse os nomes – ou, como é o caso, a roupa e o cenário. São personagens de papelão em um mundo de isopor, que não sabem se expressar e, assim como seus roteiristas e diretor, não têm nada a dizer. Não vai ser dessa vez que as aventuras infantojuvenis baseadas em sucessos literários terão uma nova referência cinematográfica.

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